A matéria e o movimento
Nesse mundo eu nada sou O que me estranha é que em nenhum momento posso deixar de ser Me cobram profissão, respostas para o meu futuro na ponta da caneta Esta, que escreve no formulário a ser preenchido nesse momento E o que me assasina é sempre o desejo incompreendido pelas palavras que me fascina Não consigo digerir o texto de modo a preencher as vísceras do meu estomâgo Beijo lentamente as palavras que fissuram um espaço No beco da minha alma Daí resulta nessa amálgama sentimental que por horas eternas me apetece Moro por tempo indeterminado no universo de desentendimento que as letras se provocam Quando estão postas umas sobre as outras Emanando horror, paz, guerra, colapso e gozo Vida e confusão Tristeza pelo tempo que ficou aprisionado na porta Assim é a linguagem Sem som, mas tu escuta a voz que escrevo Grito abafado nessa tinta escura que te mancha as mãos Feito de sangue de enfermo Sem imagem, mas tu contempla a visão que te evoca Aos sentidos dispersos Porém imersos nesta claustrofóbica folha que te prende até o fim da linha E tu traz contigo a velha casa que morou O filho que adotou A cerca que pulou para conhecer o mundo a fora Todos os teus anseios metafísicos Toda a tua dor que ninguém se importa, mas que jura que nestas páginas teu coração vai se encontrar Assim como faz agora Assim é como fez sempre neste ciclo malicioso da vida Poesia é perder-se na matéria em movimento e procurar resto de si na estação do trem Assim, faz-se moradia naquilo que te evocou mais vida.
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