Com suas mãos vermelhas
Fortes e grandes
Realmente ameaçadoras
Cujo cheiro e aparência remetem a violência
De onde escorre sangue
Com essas mesmas mãos que engana e convencem
Seduzem por seu poder e sua beleza obscena
Ele amassou o pão
Sovou com malícia e vontade
Assou o pão no fogo tão familiar a ele
No fogo de suas profundezas
E nós o comemos
Porque quem tem fome não pode escolher
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Sim, eu senti dó dela
Sim, ela é rica
Ela tem 14 e o peso do futuro nas costas
"Eu tenho que ser bonita"
Ela disse
"Vou ser dermatologista para ser sempre jovem"
"Eu tenho que ser alguém"
"Eu sou o investimento dos meus pais"
"Minha avó quer que eu seja magra"
É só um poema
Mas ela realmente me disse essas coisas
Minha aluna rica
Do alto da minha pobreza
Da minha falta de metas sensacionais
Eu senti dó
Da pobre meninas rica
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Paredes mofadas e rachadas
Pintura descascando
Chão encardido de gordura onde as baratas se alimentam
O quarto da bagunça é a casa toda
Uma porta não fecha a outra não abre direito porque raspa no chão
As pias vazam
A sujeira está tão impregnada que faz parte do chão e dos móveis
Ninguém vai limpar nada, ninguém é obrigado
É mágoa, é mágoa
Perdão é um solvente que não existe nessa casa
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Eu gosto de cantinhos
Onde as paredes tetos e pisos se encontram
Onde formam pirâmides nos vácuos
Eu queria ser essas pirâmides
Pirâmides com olhos
Que vêem e pensam
Que sentem
Mas não fazem nada
Só se encaixam
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Eles vão continuar onde estão
Não importa se você anda ou corre
Eu sei que você os quer
Eu também queria
Também quero
Essa é a regra
Agente espera
Não é justo, eu sei
Eles podem vir mas agente só pode esperar
Nesse mundo de regras prontas onde chegamos
O negócio é segui-las
Pelo menos na maioria das vezes
Fica na sua
Espera
A vida de uma mulher é esperar
Tomar banho frio
Se comportar
Mulher não deseja, não luta
Não grita, não corre
Só chora
Mas chora baixinho
Parece que as coisas estão mudando
Mas não mudaram nada
Agente tem que ter medo dos lobos
Os reais e os virtuais
Morro de medo da língua de lobo
Ela é ácida
Ela produz olhos que vêem o mal
Quem sabe um dia
Filha
Vamos correr com eles
Correr com lobos
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Era uma vez uma eu bem mais jovem
Que experimentou lança-perfume no carnaval
Eu lembro de me levantar, fechar os olhos e e me sentir um vácuo
Eu era um contorno
As coisas aconteciam em volta
Vinham estrelas coloridas e brilhantes de dentro de mim
Pra dentro de mim
Passavam por mim
Foi muito bom
Era uma vez uma eu bem mais velha
Passando muitos dias sem sentir muita coisa
Só ansiedade
Só pânico
Só desânimo, desesperança
Nada
Chega disso
Num banho fechei os olhos e tentei lembrar das últimas vezes que senti felicidade
Quando a Alice me contou coisas que eu nunca contaria para minha mãe na idade dela
Quando a Bianca sorriu para mim só porque eu estava ao seu lado
Quando eu sentei na grama para montar uma barraca com o meu pai
Eu era um vácuo de novo
Com a água morna caindo nos meus contornos
Tudo acontecendo em volta
E as minhas estrelas passando por mim
Vindo de dentro pra fora
E de fora pra dentro
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O povo conclui
Que normal nunca fui
Alguns riram, feriram, subiram, despiram
Olharam, amaram, imaginaram, ficaram, satirizaram, abandonaram
Tal qual atração de circo
Tal qual um cisco, um risco
Respiro, ando, como, trabalho
Quanto eu valho?
Minha grande diferença?
Motivo da desavença
Não é não ter
Ninguém tem tudo que quer
É não querer o todo mundo quer
E o que eu quero?
Meu desejo sincero
Não é iPhone, Disney, Prada ou Louis Vitton
Na loja da esquina eu compro meu batom
Eu quero sentir
Trabalhar
Produzir
Viver
Eu quero querer uma coisa diferente todo dia
Eu quero escrever poesia
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Hoje ela usa um vestido
Aquele barato de tecido leve
Que cobre tudo
Mas marca cada curva e cada movimento
Tem aquelas curvas e movimentos que ela não gosta
mas são parte dela e mesmo esses capturam olhares
As unhas sem fazer e o rosto sem maquiagem
Ela mesma
Por baixo, roupas confortáveis que deixam o corpo ser o que é
A pele, a gordura e os músculos balançam a cada passo, a cada giro, a cada pulo
Não há nada do que ter vergonha
Claro que ela sabe que ele a olha
Claro que sabe o que acontece por baixo do shorts
É só um shorts velho
por baixo tem vida potente e pulsante
Seu vigor transparece sob o sol
Ela não precisa de modelos ou de ratos de academia
Existe força ali, existe uma barba sem fazer, um cabelo fora do corte
Sem camisa, a pela mostra a história de uma vida real
Agora existem duas pessoas juntas
Cujas felicidades não são instagramaveis
E essas felicidades podem estar dentro de tudo:
juventude e maturidade, robustez e magreza, sabedoria e sonho
Tudo é beleza
Quando o corpo é respeitado
Quando o corpo é compreendido
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Jurei que nunca escreveria um poema de amor
E por mais que pareça
Esse não é um poema de amor
Juntos a tanto tempo nós estamos
É tão engraçado perceber o quanto eu era cega
Cega de amor?
Não, simplesmente cega mesmo
Eu não tinha olhos para ver
Mas que interessante, os olhos cresceram
E eu te vi
E eu vi como você sempre me traiu
Desde o começo
Nunca parou
Não sei porque eu não enxergava traição como traição
Para mim era só mais uma coisa que os homens fazem
Não vou mais escrever sobre outras coisas fingindo que isso não pode acontecer comigo
Fui traída sim, como qualquer um pode ser
Na verdade, percebi há muito tempo
mas fazia questão de esquecer
De negar
Vou tatuar na minha pele
Olhar todo dia
Fazer questão de lembrar
A diferença é que agora eu sei que a culpa não é minha
Não choro mais de raiva de mim mesma
Nem choro mais de raiva dele
Nem choro mais
Desse labirinto intricado eu peço uma saída
A quem quer que queira me ajudar
Mas lá no fundo
Eu tenho outro desejo
Um desejo obscuro e antigo
Já que ele pode
Eu também posso
Deus me condenaria se soubesse
Mas depende de que Deus estamos falando
Eu peço a um deles
A um desses deuses
Uma oportunidade de experimentar
Como é provar do fruto proibido?
Quente e pulsante
Que envolve o corpo
Que faz gemer
Que tem que esconder
Como é voltar pra casa com cheiro de pecado?
Com a sensação do toque de outro por toda a pele?
Como é ter que esconder um sorrisinho malicioso que escapa na ceia de natal?
Deve ser deliciosamente horrível
Deus me livre desses pensamentos impuros
Que ninguém nunca me ouça
Só você
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A pinga que você bebe amarga a minha boca
Quem dera fosse por causa dos beijos
Quem dera eu ainda quisesse beijar-te
Me amarga porque está grudado em mim
Os anos são cola quente que se esquece que é cola
Pensa que é pele
Te odeio
Me fez mulher amarga
Uma vez fui doce e ardente
Ai Deus!
Se um dia essa cola derrete
Minhas asas crescem de novo
Se um dia essa cola derrete
Eu descubro quem eu sou
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