Djosefe Tavares @DjosefeTavares
Arte

Gueto em Silêncio

‎Não somos livres. ‎Somos prisioneiros dos nossos próprios medos, ‎filhos de becos apertados e promessas vazias, ‎onde o futuro se mede por sobrevivência. ‎ ‎Não somos maus. ‎Somos apenas defensores da nossa vontade, ‎aprendendo a endurecer onde o amor já não chega, ‎onde a lei é distante ‎e a justiça mora noutro bairro. ‎ ‎Já rimos de felicidade, ‎jogávamos fora as necessidades ‎porque ainda havia esperança — ‎e o amanhã era só um detalhe. Sabes!? ‎ ‎Ignorávamos o futuro, ‎vivíamos despreocupados. ‎A fome não era constante, ‎e jamais tocaríamos naquilo ‎que outro lutou tanto pra conquistar, ‎nem com força, ‎nem nas sombras. ‎ ‎Mas agora… ‎Os becos viraram campos de batalha. ‎As mãos que deviam segurar livros, ‎seguram catanas. ‎Os meninos de ontem, ‎são soldados sem causa de hoje. ‎ ‎Gangues nascem de desespero, ‎irmãos viram inimigos por território, ‎por respeito, ‎por nada. ‎ ‎A cada esquina, ‎sangue novo tinge o chão quente de Luanda. ‎E ninguém escuta. ‎Só julgam. ‎ ‎A alma grita, ‎mas a voz morre abafada ‎entre sirenes que nunca chegam ‎e mães que choram em silêncio. ‎ ‎Ó Angola, minha terra, ‎onde o povo do gueto ‎aprendeu a sorrir com dor, ‎a lutar sem armas dignas, ‎a viver como sombras num país de luz. ‎

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