Gueto em Silêncio
Não somos livres. Somos prisioneiros dos nossos próprios medos, filhos de becos apertados e promessas vazias, onde o futuro se mede por sobrevivência. Não somos maus. Somos apenas defensores da nossa vontade, aprendendo a endurecer onde o amor já não chega, onde a lei é distante e a justiça mora noutro bairro. Já rimos de felicidade, jogávamos fora as necessidades porque ainda havia esperança — e o amanhã era só um detalhe. Sabes!? Ignorávamos o futuro, vivíamos despreocupados. A fome não era constante, e jamais tocaríamos naquilo que outro lutou tanto pra conquistar, nem com força, nem nas sombras. Mas agora… Os becos viraram campos de batalha. As mãos que deviam segurar livros, seguram catanas. Os meninos de ontem, são soldados sem causa de hoje. Gangues nascem de desespero, irmãos viram inimigos por território, por respeito, por nada. A cada esquina, sangue novo tinge o chão quente de Luanda. E ninguém escuta. Só julgam. A alma grita, mas a voz morre abafada entre sirenes que nunca chegam e mães que choram em silêncio. Ó Angola, minha terra, onde o povo do gueto aprendeu a sorrir com dor, a lutar sem armas dignas, a viver como sombras num país de luz.
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