Sou eu, mesmo quando doeu - continuação
Quando voltei da feira, disse com calma: “Tive que cortar caminho pra não dar problema pra você.” Ela fingiu que acreditou. Eu fui direto pros afazeres. Lavei as roupas — as minhas, as dela. Com mãos doídas e alma em silêncio. No dia seguinte, fomos ao parque. O único. O dia em que pude sorrir sem medo. Comi o que tive direito. Andei. Ri. E quando subi na roda-gigante, o mundo ficou pequeno. Ela, lá embaixo, era só uma silhueta. Mas ali, no alto, eu tive o pensamento que mudou tudo. Eu percebi. Ela odiava ser contrariada. Detestava teimosia. Não suportava pirraça. E então, entre as luzes da cidade, eu fiz um plano: > "Mesmo que me bata… vou provocar. Vou resistir. Vou ser a faísca que ela não consegue apagar. E aí… ela mesma vai me mandar embora." E foi isso que fiz. Dia após dia. Sem gritar. Sem correr. Só com a força de quem quer voltar pra casa. Porque agora, eu já sabia o caminho. Foi ali que comecei os primeiros passos. Ela mandava fazer de um jeito — eu fazia de outro. Não por desobediência, mas por estratégia. Por sobrevivência. Chegamos da rua. Ela mandou os filhos subirem. Me olhou com raiva, com a voz seca: > “Tá abrindo as asinhas, moleca? Fica esperta comigo… não esqueci de hoje.” E eu, pela primeira vez, não abaixei os olhos. Olhei direto no rosto dela. E sorri. Não com deboche, mas com certeza. Com a certeza de quem já enxergou a saída. De quem não tem mais medo. De quem descobriu que até uma gaiola pode ser empurrada com a força de um olhar. E então… eu subi. Não fugi. Não corri. Subi. Continuar...
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