Sou eu, mesmo quando doeu - continuação
Eu sabia que não podia fugir. Não tinha um real no bolso. Nunca fui paga. Nunca tive nem como ir embora, nem pra onde. Então comecei a pensar: "Se ela não me deixa sair… eu preciso fazer com que ela me mande embora." O plano era sobreviver até a chance. E a chance veio do único gesto gentil naquela casa: o marido dela. Ele chegou de viagem, viu que os filhos iam ao parque de diversões e que ela não queria me levar. Ele não aceitou. Disse que eu ia sim. Brigou com ela. E me deu dinheiro. Disse: “É só pros seus lanches, tá? Pros seus brinquedos. Ela vai comprar os ingressos.” Foi a primeira e única vez em que me diverti. Mas antes do parque, ela ainda tentou roubar o brilho: me levou à feira do rolo. Talvez pra me lembrar que eu não era livre. Mas o que ela não sabia é que naquele parque meu coração andou pela primeira vez em muito tempo. E foi ali que a certeza cresceu: Eu não nasci pra ser prisioneira. Eu nasci pra ser livre. A feira do rolo era cheia, barulhenta, crua. Ela comprava blusas, casacos, uma calça e um sapato. Disse que era pra eu não parecer uma mendiga quando fosse ao parque com os filhos dela. Eu carregava as sacolas, pesadas como o mundo. E foi então que chegou a polícia. Os vendedores ilegais correram. A multidão se espalhou. E ela… foi embora. Com os filhos. Me deixou lá. Sozinha. Eu, adolescente, carregando as compras de uma mulher que me escondia, tive que achar a saída da feira por conta própria. Mas mesmo assim, voltei. Cheguei com as sacolas pesadas, as mãos doendo. Ela estava na cadeira de balanço, fumando um cigarro, como se nada tivesse acontecido. Me olhou com desdém. E soltou: “Pensei que você não viria mais.” Não me abraçou. Não agradeceu. Nem perguntou se eu tinha me perdido. Nem se eu estava com medo. Naquele momento, eu soube: ela nunca ia mudar. Mas eu já tinha mudado. Continuar...
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