Sou eu, mesmo quando doeu - Continuação
Ela voltava só às dez da noite. Das 8:30 ao meio-dia, a casa era minha — mas não era liberdade, era silêncio vigiado pelo medo. Mas num desses dias, Angel voltou. Chegou pra conversar. Do lado de fora da casa, eu falei o mais rápido que pude — com os olhos, com as mãos, com o que sobrou de voz. Expliquei. Rápido, rasteiro, com medo de dar tempo da dor me alcançar. E então… veio o domingo. Ela apareceu de novo. Com roupas nas mãos. Na frente da minha patroa, disse: “Olha, Boneca… trouxe essas roupas pra você. Porque só vejo você com essa roupa ou com a de trabalho.” Eu olhei pra patroa. Ela disse com os dentes fechados: “Pega. Ela está te dando. Agradeça.” E eu agradeci. Mas meu corpo tremia. Nesse dia, meu pai ligou. Angel estava ao meu lado. A patroa não pôde me ameaçar. “Bença, pai”, eu disse. “Deus te abençoe, filha”, ele respondeu. Perguntou como eu estava. Eu queria gritar, chorar, contar… mas tudo o que consegui dizer foi: “É saudade.” Porque se eu dissesse mais, a dor voltaria em dobro depois. Meu pai insistiu. “Passa pra minha irmã. Quero falar com ela.” Ela desligou. Na cara. Angel viu. E foi aí que ela não ficou mais calada. Disse que eu podia tomar banho na casa dela quando a patroa saísse. Falou com firmeza: “Ela não devia ter desligado esse telefone.” As duas discutiram. Mas eu já sabia: a partir dali, eu não estava mais sozinha. Ela proibiu a Angel de entrar. Disse que a casa era dela. Que não queria mais visitas, nem bondade atravessando o portão. Mas o que ela não sabia é que eu já tinha acesso ao banho na casa de quem me via. E foi lá — no vapor quente, no cheiro de sabonete, no silêncio sem ameaças — que eu falei, baixinho, mas com o coração inteiro: “Eu já não aguento mais isso.” Angel olhou pra mim, firme. Com olhos de quem sabia o caminho. E disse: “Se você não tomar coragem, vai continuar sofrendo. Mais. E mais. E mais.” Foi aí que algo em mim começou a quebrar. Mas não como um copo. Como um casulo. Continuar...
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