Darllyz Tavares @Darliene
História

Sou eu, mesmo quando doeu - Continuação

Mas um dia, minha mãe ligou. E talvez o universo tenha feito um favor: fez minha voz falhar. Minha voz… já não era a mesma. Não era firme, não era viva. Era vazia. E minha mãe percebeu. Ela perguntou: “Você tá bem?” E antes que eu respondesse, a mulher tomou o telefone da minha mão. Fez de conta que o sinal caiu. Desligou. Só que meu pai — meu padrasto — estranhou. E ligou de volta. Percebeu que ela desligou de propósito. Talvez ali, uma pulga ficou atrás da orelha. Talvez ali, o silêncio tenha começado a rachar. Naquela mesma tarde, uma vizinha veio visitar a casa. E ela me olhou… e sentiu o cheiro da minha dor. Literalmente. Meu corpo, sem banho há dias, revelava o que eu escondia com sorrisos forçados. Foi ali. Naquele instante. Que o segredo começou a apodrecer por fora. E as pessoas, enfim, começaram a enxergar o que já doía em mim há muito tempo. A vizinha, Angel, me olhou. Sentiu meu cheiro de ausência. E me perguntou: “Você tomou banho?” Olhei pra baixo, disfarçando meu medo. Minha voz saiu baixa, educada, com culpa: “Não, Angel… ainda não. Só depois dos meus afazeres.” Quando ela foi embora, minha patroa mandou: “Sobe.” Fui pra parte de cima, em silêncio. A casa parecia ainda mais vazia. Ela subiu logo atrás, com a raiva fervendo no olhar. Chegou perto e disse: “Você tá doida? Quase acaba com a minha vida!” Eu não entendi. Mas pedi desculpas mesmo assim. Porque é isso que a dor ensina: a pedir perdão por existir. E foi aí… que veio o tapa. Seco. Rápido. Cruel. Ardeu no rosto, mas doeu mais no peito. Porque naquele instante, eu entendi que nenhum silêncio me salvaria dela. Continuar...

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