Sou eu, mesmo quando doeu - A rotina que me engoliu
Às 7:10, eu voltava da escola. Nem sentava. Ia direto pra limpeza da casa. Acordava a patroa às 7:40, e enquanto ela se arrumava, eu limpava o quarto dela — cada canto, cada rastro. Às 8h, acordava o outro filho. Dava banho, dava o café. Às 8:30, levava pra escola. E era só então que a patroa saía pro trabalho. Mas mesmo com ela fora… o medo ficava. Medo de estar sendo filmada, de pisar em falso, de respirar fora do ritmo que ela tinha imposto pra mim. Então eu fazia tudo como ela queria. Com precisão. Com cuidado. Com medo. Não havia descanso. Nem música. Nem voz. Eu era o silêncio da casa. E o fantasma do que sobrou de mim. Às vezes, meus pais ligavam. Era minha mãe, querendo saber se eu estava bem. Mas não havia como responder de verdade. Porque minha tia — a patroa — ficava do meu lado com o celular no viva voz. E ficava me encarando, com um cinto na mão, ou com uma chinela de couro, como se dissesse com os olhos: “Abre a boca e você apanha.” Ela era irmã do meu padrasto. E ele… sabia. Sabia onde eu estava. Sabia o que ela era. Mas ninguém fazia nada. Então eu sorria pela voz. Dizia "tô bem", mesmo tremendo por dentro. Mesmo querendo gritar: “Me tira daqui.” Mas não podia. Porque minha liberdade dependia do silêncio. E por isso, eu engolia a verdade. Mais uma vez. Mais uma vez. Continuar...
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