Partes do coração
Ás vezes, quando ela sorri, eu quase acredito que encontrei paz. Mas então, no reflexo dos olhos dela, eu vejo você — um lampejo breve, como se o tempo se arrependesse por um segundo. Ela toca meu rosto com doçura, e eu finjo que é o mesmo calor. Mas meu corpo sabe, meu corpo sempre soube — que o amor tem um sotaque, e o seu ainda ecoa em mim. Disse a mim mesmo que segui em frente, que o que morreu em nós foi enterrado. Mas às vezes, Poeta, o luto respira. E ele vem suave, como perfume antigo, como a lembrança do som da sua risada no meio de uma conversa qualquer. Ela é tudo que o mundo chamaria de “certo”. Mas o certo não me move, não me sacode a alma como você fazia. O certo não tem o caos do seu toque, nem a fé que havia em cada beijo. E eu aqui — vivendo de substituições, colecionando ecos, me embriagando de ausências. Talvez um dia, você também veja meu rosto em alguém. Talvez, no instante antes de adormecer, você sinta o mesmo peso — o de amar o que se foi, e ainda assim respirar. Eu continuo tentando, entre beijos que não pertencem, abraços que não cabem, risos que não curam. Tentando encontrar, em algum lugar do mundo, um vislumbre de nós. Mas tudo o que encontro é você, diluída em memórias, viva demais para morrer, longe demais para existir.
Arturo
Que belo poema querida Darcy! Estava com saudade dos seus escritos 💐