Ainda assim queimo de paixão
Hoje eu olho de longe o que já senti de perto. Senti entre meus dedos, senti o cheiro, senti o gosto dos lábios. Hoje eu olho de longe o seu cabelo enrolado, o seu andar meio torto… Hoje, olhando de longe, vejo a pinta que você tem embaixo do sovaco, a unha encravada no pé esquerdo, dentro do sapato 36 — aquele que você não lava há um mês. Hoje eu olho de longe o que já amei de perto. A dor ainda tá aqui. Eu sei que faz um mês que seu sapato tá sujo, porque faz um mês que eu lavei. Hoje eu percebi que o amor é triste. E que por mais que eu te conheça, hoje você é só mais uma estranha. Uma estranha que eu amo: que gosta de maçã, que pinta a unha de preto, que ama o Homem-Aranha, que dorme abraçada no travesseiro… e que tem aquela unha encravada no pé esquerdo. E isso rima com imperfeito: hoje eu vejo que o amor cega os olhos, tira a razão, e agora que o término trouxe de volta minha visão. Não entendo o porquê ainda hoje acordo com febre, queimando de paixão. -L-
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