Voltando a respirar embaixo d água
Consigo sentir a raiva
Da água invadindo meu coração
Sinto me afogar em lágrimas
Não consigo parar de sentir
Nem escapar
Dessas ondas que arrastaram
Para esse mar de solidão
Que inunda meu coração
Meu corpo cede a pressão
Sinto que perdi
Quando eu mesma joguei fora
Quando mandei todos embora
E me entreguei a esse mar
Profundo como eu
Mas forte o bastante
Disposto a afogar
E levar para distante
Engolir com suas ondas
Um ser insignificante
Claudia C Machado
Continuar lendo
Quem me plantou?
Minhas lágrimas petrificou?
Meu coração congelou
Adormecendo a dor
Mas queimando a mente
Esse gelo quente
Derrete meus pensamentos
E mesmo que a voz não saia
Eles permanecem aqui dentro
Enquanto eu paralisada
Estou fadada
A ser essa estátua
Por fora empedrada
Por dentro derrete
No absoluto nada
Claudia C Machado
Continuar lendo
Eu sou do centro
Não nego
Mas não tenho
Nenhum luxo
Favela em forma de prédio
Vivi ate ser adulta
Tiros, drogas, bebidas
Era o que via todo dia
E eram muitas as lutas
Para não ser corrompida
Já que não tinha estrutura
Pra uma digna vida
Lazer, esporte, cultura
Já cedi aos assedios
Para fugir do tédio
Moro no centro da cidade
Que nada, sou da quebrada
Periferia concentrada
A borda da sociedade
Onde a desigualdade
É brutalmente escancarada
Cortiços, prédios antigos
Como onde eu resido
E muitas construções
De condomínios de alto nível
Minha vida foi escola
Onde aprendi a lutar
Ter consciência de classe
E ter minha humildade
De saber o meu lugar
Sobrevivi, não venci
Ainda luto contra aqueles
Que querem nos derrubar
E perdem a humanidade
Quando a palavra é lucrar
Claudia C Machado
Continuar lendo
Entre o claro e o escuro
Fico em cima do.muro
Uma parte quer ser
Agradar, pertencer
Outra parte
Só quer desaparecer
Ser esquecida e esquecer
Dualidade
Vista em um simples esmalte
Deixado pela metade
Que gera impacto
Talvez chame atenção
Mas nesse caso
Sem intenção
Me arrumo
Mas tanto faz
Pois em segundos
Não quero mais
Não tiro tudo de uma vez
Deixo metade
Para mais tarde
Para lembrar
Que um dia tive coragem
De me cuidar
Mas fui apenas enxergada
Como pessoa desleixada
Claudia C Machado
Continuar lendo
Desleixo ou correria?
Depressão ou dia a dia?
Milímetros de tinta descascada
Sobre uma singela parte do meu corpo
É vista como algo torto
Nessa ditadura
Em que quem dita é quem lucra.
Não sigo os padrões.
O preço que pago?
Perco admiração,
Talvez reputação.
Mas será que é em vão
Escolher quem quero ser
E, com meu corpo,
O que quiser fazer?
Sem me submeter
A seguir algo que criaram,
Tornando inaceitável
Tudo que for ao contrário.
Claudia C Machado
Continuar lendo
Anos 2000
Filho chorou
Pai não viu
Quem apanhou se lembra
Mas quem bateu sorriu
Anos 2000
Para muitos nostálgicos
Para outros hostil
Vi o que não devia
Ouvi o que não sabia
Tiroteio, bala perdida
De tiro de fuzil
Anos 2000
Uma promessa de futuro
Virada de milênio
Um marco
Mas olhando para trás
Só vejo um passado arcaico
Claudia C Machado
Continuar lendo
Quero amor sem obsessão
Quero paz, independente de razão
Se tenho um problema
Quero a solução
Quero aprender a dizer não
Quero me abrir para o que há de vir
Desde que seja bom para mim
Quero entender os meus limites
E respeitar os alheios
Quero entender que existe
Em quase tudo, um meio-termo
Quero minha sanidade
Sem incessantes buscas
Por verdades absolutas
Ou mentiras absurdas
Quero apenas relaxar
Minhas ondas abrandar
Meu eu abraçar
E ar puro respirar.
Claudia C Machado
Continuar lendo
Todo dia
Os mesmos rostos
Parados em uma fila
O mesmo bom dia
Como um ritual
De simpatia
Ansiosos pela partida.
Rostos familiares
Que dividem o espaço,
Mas não interajo.
Não sei o que guardam
Por trás daqueles olhos baixos
Que da alma são janelas,
Focados em suas telas.
Todos na mesma direção,
Mas com caminhos diferentes.
Levam em seus corações
O que buscam dentro da mente.
No final do trajeto
Não me despeço,
Só os perco de vista.
Não os vejo seguir
Para suas vidas,
Que não são aqui.
Não espero, no outro dia,
Vê-los outra vez.
Podem mudar o caminho, talvez.
Mas, assim como eu,
Estão todos aqui às seis.
Todos de passagem,
Mas com rotinas estáveis,
Companheiros de viagem.
Ocupam os mesmos lugares,
Cumprindo o ritual conhecido,
Rumo à imprevisibilidade.
Claudia C Machado
Continuar lendo
Enquanto o sol nascia
Eu me protegia
Por medo de me queimar
Mas agora ele está se pondo
E eu sinto tanto
Medo e solidão
Nesse abrigo vazio
Em que ergui grandes muros
Até me sentir segura
Mas o nosso dia é curto
E demoremos a entender
Que não tarda o entardecer
Nem o anoitecer
E a fase matutina
Em que eu era uma menina
Ficou para trás
Quando despertei
Já era tarde demais.
Na calada de noite há paz
Há silêncio, há calmaria
Mas não há nada que aquece
O meu gélido fim do dia
Claudia C Machado
Continuar lendo
A cidade se derrete em lágrimas
Daqueles que não dizem nada
Só seguem pela estrada
Olhando pela janela
As gotas escorrem
Carrem sobre o solo e molham
Mas logo evaporam
As vejo por trás de um vidro
Mas sinto cada pingo
Aqui dentro de mim
Desprotegida da tempestade
Que carrego em minha bagagem
Sigo minha viagem
Olhando para fora
Tentando ver a beleza
Da chuva que parece alheia
Das luzes dos carros, vermelhas
É tudo tão distante
É tão íntimo, tão perto
Que finjo não sentir
E apenas observo
Essa manhã cinza
Que traduzo em versos
Claudia C Machado
Continuar lendo