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Claudia de Carvalho Machado

@ClaudiaCarvalho25 · desde 2022

Externando o caos por meio de poemas

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Vínculos jogados ao mar

Voltando a respirar embaixo d água Consigo sentir a raiva Da água invadindo meu coração Sinto me afogar em lágrimas Não consigo parar de sentir Nem escapar Dessas ondas que arrastaram Para esse mar de solidão Que inunda meu coração Meu corpo cede a pressão Sinto que perdi Quando eu mesma joguei fora Quando mandei todos embora E me entreguei a esse mar Profundo como eu Mas forte o bastante Disposto a afogar E levar para distante Engolir com suas ondas Um ser insignificante Claudia C Machado

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Aprisionada em mim

Quem me plantou? Minhas lágrimas petrificou? Meu coração congelou Adormecendo a dor Mas queimando a mente Esse gelo quente Derrete meus pensamentos E mesmo que a voz não saia Eles permanecem aqui dentro Enquanto eu paralisada Estou fadada A ser essa estátua Por fora empedrada Por dentro derrete No absoluto nada Claudia C Machado

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Periferia centralizada

Eu sou do centro Não nego Mas não tenho Nenhum luxo Favela em forma de prédio Vivi ate ser adulta Tiros, drogas, bebidas Era o que via todo dia E eram muitas as lutas Para não ser corrompida Já que não tinha estrutura Pra uma digna vida Lazer, esporte, cultura Já cedi aos assedios Para fugir do tédio Moro no centro da cidade Que nada, sou da quebrada Periferia concentrada A borda da sociedade Onde a desigualdade É brutalmente escancarada Cortiços, prédios antigos Como onde eu resido E muitas construções De condomínios de alto nível Minha vida foi escola Onde aprendi a lutar Ter consciência de classe E ter minha humildade De saber o meu lugar Sobrevivi, não venci Ainda luto contra aqueles Que querem nos derrubar E perdem a humanidade Quando a palavra é lucrar Claudia C Machado

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Tinta descascada II

Entre o claro e o escuro Fico em cima do.muro Uma parte quer ser Agradar, pertencer Outra parte Só quer desaparecer Ser esquecida e esquecer Dualidade Vista em um simples esmalte Deixado pela metade Que gera impacto Talvez chame atenção Mas nesse caso Sem intenção Me arrumo Mas tanto faz Pois em segundos Não quero mais Não tiro tudo de uma vez Deixo metade Para mais tarde Para lembrar Que um dia tive coragem De me cuidar Mas fui apenas enxergada Como pessoa desleixada Claudia C Machado

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Tinta descascada

Desleixo ou correria? Depressão ou dia a dia? Milímetros de tinta descascada Sobre uma singela parte do meu corpo É vista como algo torto Nessa ditadura Em que quem dita é quem lucra. Não sigo os padrões. O preço que pago? Perco admiração, Talvez reputação. Mas será que é em vão Escolher quem quero ser E, com meu corpo, O que quiser fazer? Sem me submeter A seguir algo que criaram, Tornando inaceitável Tudo que for ao contrário. Claudia C Machado

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Anos 2000

Anos 2000 Filho chorou Pai não viu Quem apanhou se lembra Mas quem bateu sorriu Anos 2000 Para muitos nostálgicos Para outros hostil Vi o que não devia Ouvi o que não sabia Tiroteio, bala perdida De tiro de fuzil Anos 2000 Uma promessa de futuro Virada de milênio Um marco Mas olhando para trás Só vejo um passado arcaico Claudia C Machado

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Escolho a paz

Quero amor sem obsessão Quero paz, independente de razão Se tenho um problema Quero a solução Quero aprender a dizer não Quero me abrir para o que há de vir Desde que seja bom para mim Quero entender os meus limites E respeitar os alheios Quero entender que existe Em quase tudo, um meio-termo Quero minha sanidade Sem incessantes buscas Por verdades absolutas Ou mentiras absurdas Quero apenas relaxar Minhas ondas abrandar Meu eu abraçar E ar puro respirar. Claudia C Machado

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No ônibus

Todo dia Os mesmos rostos Parados em uma fila O mesmo bom dia Como um ritual De simpatia Ansiosos pela partida. Rostos familiares Que dividem o espaço, Mas não interajo. Não sei o que guardam Por trás daqueles olhos baixos Que da alma são janelas, Focados em suas telas. Todos na mesma direção, Mas com caminhos diferentes. Levam em seus corações O que buscam dentro da mente. No final do trajeto Não me despeço, Só os perco de vista. Não os vejo seguir Para suas vidas, Que não são aqui. Não espero, no outro dia, Vê-los outra vez. Podem mudar o caminho, talvez. Mas, assim como eu, Estão todos aqui às seis. Todos de passagem, Mas com rotinas estáveis, Companheiros de viagem. Ocupam os mesmos lugares, Cumprindo o ritual conhecido, Rumo à imprevisibilidade. Claudia C Machado

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Tarde demais

Enquanto o sol nascia Eu me protegia Por medo de me queimar Mas agora ele está se pondo E eu sinto tanto Medo e solidão Nesse abrigo vazio Em que ergui grandes muros Até me sentir segura Mas o nosso dia é curto E demoremos a entender Que não tarda o entardecer Nem o anoitecer E a fase matutina Em que eu era uma menina Ficou para trás Quando despertei Já era tarde demais. Na calada de noite há paz Há silêncio, há calmaria Mas não há nada que aquece O meu gélido fim do dia Claudia C Machado

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Uma manhã chuvosa

A cidade se derrete em lágrimas Daqueles que não dizem nada Só seguem pela estrada Olhando pela janela As gotas escorrem Carrem sobre o solo e molham Mas logo evaporam As vejo por trás de um vidro Mas sinto cada pingo Aqui dentro de mim Desprotegida da tempestade Que carrego em minha bagagem Sigo minha viagem Olhando para fora Tentando ver a beleza Da chuva que parece alheia Das luzes dos carros, vermelhas É tudo tão distante É tão íntimo, tão perto Que finjo não sentir E apenas observo Essa manhã cinza Que traduzo em versos Claudia C Machado

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