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Girassol 🌻 🖋️

@AylannaMiranda · desde 2020

Lá fora é barulho, aqui dentro é papel e paz. Meu abrigo é o que eu escrevo. ✍️🕊️

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Morte

Longa noite

Sento na cadeira perto da parede fria. O silêncio da casa não é um silêncio calmo, é um peso que vai encostando nos ombros aos poucos. Fico olhando para as minhas próprias mãos e percebo como é fácil se perder dentro de si mesmo. ​A gente passa muito tempo fingindo que está tudo bem. A gente sorri, responde às perguntas rápidas, diz que o dia foi bom e que amanhã vai ser melhor. Mas a verdade é que a dor não vai embora só porque a gente ignora. Ela fica guardada no fundo, crescendo bem devagar, até ocupar todo o espaço do peito. ​Pensar sobre isso não é uma escolha de um segundo. É o resultado de muitos dias seguidos carregando um peso grande demais. O mundo continua girando lá fora, as pessoas andam na rua, os carros passam, mas aqui dentro o tempo parece ter parado. Não existe uma resposta simples, nem uma palavra mágica que mude o que se sente. ​A escuridão não chega como uma tempestade barulhenta. Ela chega em silêncio, apagando as coisas aos poucos: a vontade de conversar, o gosto das lembranças, o interesse pelo que vem no dia seguinte. Quando você percebe, o vazio já tomou conta de tudo. ​Olho para o quarto e aceito essa ausência de luz. Não há nenhuma virada no caminho desta vez, nem uma promessa de que o sol vai voltar. A noite continua longa e pesada, e a sombra cobriu o restinho de esperança que sobrou.

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Calma menina

Calma, menina, desacelera esse passo, Não precisas carregar o mundo nos teus ombros. O tempo com carinho junta cada pedaço, E o sol sempre volta a iluminar os escombros. Respira fundo e deixa o peito descansar, Nem toda pressa traz o fruto que se espera. Até a tempestade mais forte há de passar, E a terra no escuro sabe esperar a primavera. Não te cobres tanto pelo que ainda não veio, Guarda a tua paz como quem protege um tesouro. Acalma esse coração cheio de incerto receio, E lembra que a quietude também vale ouro. Vai no teu ritmo, entre a firmeza e a leveza, Aos poucos a vida desata o nó da tua estrada. Segue serena, menina, e tem a certeza: O teu tempo é perfeito e você não está atrasada.

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Humano !

Fui o teu abrigo no teu pior momento, Segurei teus passos com todo o meu cuidado. Te entreguei afeto, meu tempo e alento, E fui o teu porto quando o mundo esteve errado. ​Hoje tu me olhas com esse tom tão frio, Devolvendo pedras a quem só te fez bem. A chateação me trouxe este vazio, Mas prefiro a paz e não guardar mágoa de ninguém: ​“Eu não disse isso quando você estava mal.” ​Apaguei o texto, recolhi a dor, Pois a calmaria é onde meu peito mora. Não vale a pena insistir no valor De uma consideração que já foi embora. ​Fica esse silêncio, leve e transparente, Um triste lamento pelo que acabou. Sigo o meu caminho, sereno e consciente... Humano, bem humano. E aceito o que passou

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Laço de luz

​Não há vazio onde transborda afeto, nem distância capaz de me fazer partir. Ainda que os passos habitem outro teto, é na tua memória que escolho residir. ​A saudade aqui não veste o manto da ausência; ela é apenas o avesso de um abraço apertado. Permaneço por perto, na pura insistência de quem se faz presente, mesmo do outro lado. ​Estou no silêncio que precede o teu riso, na luz mansa que insiste em dourar o teu chão. Não me afastei de tudo o que nos é preciso: mudo de rumo, mas não de coração.

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Felicidade

Manifesto da intensidade

​Não me vendam a paz dos dias mornos, Nem o riso estático guardado na gaveta. Eu recuso os caminhos sem contornos, E a redoma de uma vida discreta. ​Dizem que o norte de tudo é ser feliz, Essa linha reta, calma e anestesiada. Mas eu prefiro o risco e a cicatriz, A vertigem de caminhar na corda esticada. ​Não vim para este mundo buscar abrigo, Nem para aplaudir o que é seguro e raso. Quero o abraço quente do perigo, E a luz cega rasgando o acaso. ​Quero o choro que deságua em tempestade, O amor que queima até virar cinza, O soco no estômago da verdade, A vida crua que incendeia e agoniza. ​Se me virem sangrar ou rir bem alto, Não tentem me curar com calmaria. Eu sou a pressa, o grito, o sobressalto, A própria carne da poesia. ​Não me limitem ao teto do "contente", Pois a felicidade é um porto muito manso. Eu escolhi viver intensamente, E não tenho nenhum interesse no descanso.

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O declínio da estação

​ ​O campo já não sustenta a mesma voltagem. Há um cansaço que começa na base, uma fadiga de ser o reflexo constante de algo que decidiu mudar de direção. ​O girassol entendeu, antes de todos, que o horizonte não é uma promessa de retorno, mas uma linha de fuga definitiva. Não houve aviso, apenas a inclinação lenta de quem aceita que o centro de gravidade se deslocou.

Amor

Sentença de si mesma

​ ​Erguemos o "não desistir" como uma bandeira, Mas, às vezes, ela é apenas o pano que limpa o chão onde o outro pisa. Você chama de persistência o que, no fundo, é um cerco, Onde você é a prisioneira e o carrasco ao mesmo tempo. ​O amor que aceita o silêncio punitivo como resposta Não é sagrado, é um sacrifício inútil. Pois não existe glória em manter-se inteira por fora Enquanto, por dentro, você se fragmenta para caber no desdém de alguém. ​É preciso encarar o espelho e entender a dura verdade: Quem ama não desiste, sim, é o que dizem os livros, Mas quem se ama não se deixa destruir, é o que dita a vida. ​Pois se para manter o outro ao seu lado Você precisa aceitar a irrelevância e o desprezo, O que você está salvando não é um encontro, É apenas a sua própria ruína.

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O que o raso não lê

Eu entreguei o oceano em cada verso, Meridiano de um sentir que não tem fim. Mas você viu apenas o reflexo, E não o vulcão que arde dentro de mim. Palavras que foram fogueira e abrigo, Você leu como quem olha o relógio passar. O que era sagrado, o que era comigo, Tornou-se um "foda" difícil de aceitar. Então eu recolhi as velas e o cais, Apaguei o rastro do que tentei dizer. Se o meu transbordar te pareceu demais, O silêncio é o que resta para te proteger. Pois quem só entende de superfície e vento, Não merece o peso do meu sentimento... Em resposta a reação... Sobre o poema:Teu amor.

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Amor

Teu amor

Teu amor não é brisa, nem rima ligeira, É terra firme, rocha, fundação inteira. Tem o olhar de quem mede a vida com prumo, E um passo severo que nunca perde o rumo. É sério como a noite que abraça o cansaço, Guardando um mistérios no aperto do braço. Não há frases vãs ou promessas de vento, Em ti, o "eu te amo" é puro fundamento. Mas por trás dessa face, desse porte contido, Pulsa um vulcão que jamais, jamais...foi vencido. Tua entrega é e não é absoluta, um mergulho sem fim, Uma chama constante queimando por dentro de mim. É o contraste perfeito, a calma e o rigor, A seriedade do mundo curada pelo teu calor. Pois quem te vê pedra, não sabe o segredo: Teu amor é o único lugar onde não sinto medo.

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Música

Eco

É que o peito é tambor, batendo contra o vento Não é só entretenimento, é o puro sentimento Se o mundo é frio e vão, eu trago o meu braseiro Erguido no terreiro, herdeiro do tormento Dizem que a arte salva, mas quem salva o artista? Quando a luz do refletor apaga e a dor vira conquista? Eles querem a rima, mas não querem o calo Querem o verso pronto, mas ignoram o estalo Da bota no asfalto, do enquadro no escuro Da esperança que insiste em brotar lá no muro Pois se o prato tá vazio, a poesia é o grito De quem cansou de ser número e quer ser infinito. Não sou daqui, é verdade, sou de um plano maior Onde o suor vale ouro e o amor é o nó Que amarra a coragem no topo da ladeira Minha voz é trincheira, minha vida é bandeira Se o Sun Tzu fez a guerra, eu faço a retomada Pois quem conhece o abismo, não teme a jornada. Ando só? Jamais. O morro desce comigo Em cada rima um abrigo, em cada verso um perigo Pois enquanto houver sangue, haverá melodia Transformando o cansaço em pura profecia.

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