Orpheus Noah @Atlants

a despedida de meu porto seguro

esse ano tem sido o pior ano desde que tomei consciência. foram inúmeras as decepções que tive comigo, pessoas erraram mais de uma vez comigo, e eu ainda não aprendi a ir embora delas, mesmo quando preciso mais do que tudo, ir embora delas. foram decepções amorosas entrelaçadas à minha dependência, abraços amargos que me levaram à essa emocional falência, tantos sentimentos que guardei na gaveta esperando que desaparecesse com o tempo em que aqui fiquei. foram tantas vezes em que permaneci por tempo demais onde já não deveria estar numa terça-feira chuvosa qualquer, mesmo sabendo que ficar era molhar ainda mais minhas vestes. foram tantos energéticos aquele dia para ao menos disfarçar o choro, choro esse que veio lá de dentro, do mais íntimo sentimento. tantos silêncios para abafar o barulho que eu acreditei causar, foram tantas vezes em que tentei esconder de mim o que já não conseguia esconder de mais ninguém. como se fingir que estava tudo bem pudesse, em algum momento, fazer com que realmente estivesse. às vezes, preciso colocar música alta no fone para calar um pouco do excesso aqui dentro. como se o barulho de fora pudesse silenciar o grito que me afora. às vezes ajuda, quase sempre não ajuda. porque, por mais alto que o som esteja, meu excesso é ainda mais desesperador e alto. tento fazer alguma coisa para me distrair da minha incapacidade de ir, mas acabo me distraindo em pessoas, pessoas de quem sou tão dependente, dependendo dos sorrisos delas e do toque delas para validar suas presenças, para convencer a mim de que elas continuam aqui por perto, de que ainda não foram embora e de que não estou sozinho mais uma vez. quando não consigo essa confirmação, minha mente me convence de que elas já não mais estão, por causa da minha insuportável insuficiência em deixá-las por perto. é que perto demais, conseguem enxergar minha carência, e estou enfermo por essa decadência de que a ausência de uma despedida, que talvez tenha acontecido, mas não vi, é derivado dessa urgência. e como eu odeio despedidas, como odeio a sensação de perder alguém que me é importante, antes mesmo de compreender o que fica rasgado na boca desse estômago, como odeio ter de aprender a conviver com esses espaços que antes eram ocupados por pessoas que significavam tanto. pois este ano foi o ano das despedidas, três mães que me adotaram em São Paulo, um melhor amigo que ficou distante, amigos que, por algum motivo, já não estão tão perto como antes, tantas pessoas que passaram pela minha vida e deixaram marcas que eu ainda não sei como carregar, tantas ausências que se acumularam dentro de mim sem que eu tivesse tempo de compreender cada uma delas. uma geminiana que me mostrou o quão trouxa eu posso ser quando gosto de alguém, o quanto sou capaz de permanecer mesmo quando deveria partir, de insistir mesmo quando deveria desistir e de guardar sentimentos que talvez nunca tenham encontrado o mesmo espaço do outro lado, até que precisei juntar minhas trouxas de roupas e jogar fora, pois tudo me lembrava dela. o fato é que me bate a saudade das pessoas, aquelas mesmas pessoas que me trocam. mais do que isso, me da saudade das que me tocam, da presença que consigo sentir quando alguém me abraça em meio ao meu medo de toque, da necessidade de confirmar, através do toque, que as pessoas que amo continuam aqui, que ainda posso alcançá-las e que não estou perdendo mais ninguém. eu estou desesperado e com medo de desaparecer, de deixar de existir na vida de alguém que se tornou família, de me tornar apenas uma lembrança para quem ainda significa tanto para mim, de que a distância faça aquilo que o tempo ainda não fez e transforme a nossa presença em saudade, enquanto eu continuo aqui, tentando entender como alguém pode ocupar tanto espaço dentro da gente e, ainda assim, existir a possibilidade de perdê-lo. tenho medo de você se esquecer de mim, Isa.

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