Vazio Trincado
Eu não pude te chamar de amor, seria mentira dizer que ainda existiam resquícios de um calor finito, mesmo assim me ludibriei em tuas chamas sem remate. Contudo, ainda lembro de ti como o meu soldado, aquele que pela primeira vez arremessou o meu cristal no ar, primeiro trincou as extremidades, depois tentou remendar sem jeito, de súbito os transformou em cacos, em desespero recorreu a uma colagem e novamente, os destroçou em pontos milimétricos. Poderia escrever um poema, rimar sobre o passado, montar estrofes acompanhando as métricas corretas, porém, com o tempo eu pude aprender que nem tudo se transforma em verso, por vezes é melhor sentir sem camuflar. Desde o princípio essa escolha foi remendada por meses, até que não conseguisse mais carregar os pedregulhos desse coração pioneiro. A primeira paixão de uma mulher saltita entre memórias, talvez haja arrependimentos, mas sempre com um toque de doçura e amargor, através de um amor desconhecido no qual se descobre nunca conhecer alguém de fato, e muito menos a si mesmo. Nunca fui de prosa, os poemas sempre me escolheram entre as suas intensidades, entretanto, quando não há o que mais sentir, ou não se sabe como organizar cada fagulha para evitar um incêndio, é melhor prosear sobre o que não se sabe, até que um dia releia e aceite jamais saber, para assim viver em paz.
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