Tantas vezes se morre
Depois de se haver nascido
Que nem se percebe o quanto
Se poderia ter vivido
Morre-se quando não se vive
Morre-se quando não se ama
Morre-se quando não se entrega
Cada vez que a vida chama
Morre-se um dia atrás do outro
Morre-se a cada novo dia
Morre-se cada dia um pouco
A cada sonho que se adia
Morre-se, de manhã, bem cedo
Morre-se, à tarde, à noite, também
Morre-se até de madrugada
Cada vez que o sono vem
Morre-se sempre, sem descanso
Morre-se muito, sem parar
Morre-se até se se descansa
Se se para pra pensar
Se se está vivo se morre
Nada há que se fazer
Qualquer um que vive pode
Num segundo só, morrer
Mas, se se está vivo, ainda
Se se quer, ainda, viver
Há de se encontrar, na vida
Razão até pra se morrer
Morre-se, muita vez, sem causa
Sem assunto, sem razão
Sem valia, sem ideia
Sem motivo, sem questão
Sem sentido, à vez, se morre
Sem se saber o porquê
Sem se fazer o que se deve
Morre-se apenas por morrer
Morte boa, bem morrer
Vem ao fim de um bem viver
Se se vive bem a vida
Nada a morte há de ser
Aloísio Vilaça
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Acolhe os que a ti vierem ter
Perdoa os que, acaso, te ferirem
Reparte o que tiveres, com prazer
Dá o quanto puderes aos que pedirem
Evita magoar quem te magoa
Levanta os que, caídos, avistares
Alguém que, acaso, te insultar, perdoa
Releva quando te decepcionares
Se dor maior vier te visitar
Se mal cruel vier te importunar
Mantém-te firme no teu proceder
Recolhe-te ao fundo do teu ser
Conjuga, no presente, o verbo amar
E torna-te o sujeito, ao conjugar
Aloísio Vilaça
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Eu, com o tempo, fui ficando assim:
Meio ausente, mais distante, calado
Mais intenso, mais profundo, guardado
Menos denso, mais propenso a mim
Meio ausente de futuro e passado
Mais imerso em tudo que é presente
Eu, com o tempo, me encontrei, de repente
Menos tenso e sem senso de pecado
Já não penso no que pensam de mim
Já não sofro quando penso no fim
E recuso tanto o mal quanto o bem
Já não julgo e nem culpo ninguém
Já não caibo nos conceitos de alguém
Eu, com o tempo, me tornei assim
Aloísio Vilaça
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Sob o céu azul
Jabuticabeira em flor
Perfume de Deus
Haverei de compor um canto novo
Hoje que a dor veio me visitar
Hei de pronunciar a todo o povo:
Grato sou até pelo meu penar
Eu irei cantar o meu novo canto
E não deixarei a dor me calar
Minha oração secará o meu pranto
E com gratidão saberei orar
Não me esquecerei de agradecer
A sorrir, direi: eu já sei sofrer
Não pensarei no mal que a dor me faz
Não olvidarei os tempos de antanho
Quando havia em mim um vigor tamanho
E me sobejavam saúde e paz
Aloísio Vilaça
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A despeito de tanto sofrimento
Fruto de reles condição humana
Experimento o contentamento
De perceber que de meu ser emana
Vida, paz e bem, e de ser capaz
De compreender que toda e qualquer dor
Que me frequenta o ser é que me faz
Merecedor de um tanto mais de amor
A extensão que há de divindade
Em muito excede a de humanidade
No ser que sou, em tudo que há em mim
A cada dia, um pouco mais, meu ser
Reflete luz; e há de florescer
Em mim, a flor do bem, um dia, enfim
Aloísio Vilaça
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Nada quero, senão tempo
Sei, é pouco o que fiz
Vejo que não fui capaz
De aliviar sofrimentos
E de promover a paz
Breve, a vida é curta e rara
Parcos são dias e horas
Tanto anseio ainda [e quanto!]
Por um pouco mais de tempo
Pra fazer o que não fiz
Quero tanto, e pouco faço
Faço pouco, e tanto espero
Que tanto nem quero, mais
Só o tempo hoje quero
Só mais tempo, e nada mais!
Aloísio Vilaça
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Pai amado, amigo meu, querido
Meu norte, meu guia, porto e guarida
Vós que me dais à existência sentido
Vós, que me tendes sustentado a vida
Em mar revolto e agitado velejo
Parco, meu barco conduz vossa mão
Vago, à deriva, ao sabor do ensejo
Bem do meu lado navega um irmão:
Em águas profundas, vela arriada
Barco sem rumo, canoa quebrada
Naufrágio certo, cruel tempestade
Dai-me, oh, Pai, o dom de poder ser
Porto e guarida pra quem fenecer
Na procela do mar da eternidade
Aloísio Vilaça
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Pai nosso que estais no céu; Pai, querido
Ouve nossa voz e nossa oração
Atendei, uma vez mais, nosso pedido
Que é feito com amor e devoção
Vós, Pai, que sempre estais ao nosso lado
Com cada um de nós, os filhos teus
Abençoai os pais, ó Pai amado
A cada pai, ó Pai, filho de Deus
A vós, oh Pai, em oracao, pedimos
Que o grande amor que nós, por vós, sentimos
Possais, vós, sentirdes por nossos pais
De quem as vidas, todas, entregamos
Em vossas mãos e, com fervor, oramos
Pedindo-vos que que lhes concedais paz
Aloísio Vilaça
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Elevo meu pensamento, e reflito
Contrito, eu acalmo meu coração
Recolho-me, silencio meu grito
E fecho meus olhos, em oração
De súbito, sinto a Tua presença
Que inunda de paz, inteiro, o meu ser
Tomado, eu, por emoção imensa
Permaneço, prostado, e sem querer
Extasiada, minh'alna proclama
A todo o universo o Teu Nome Santo
Na prece que ecoa, e seca meu pranto
Decerto, dirão: é tolo quem clama
A um ser que não vê, não ouve e não sente
A esses direi: Deus é paciente!
Aloísio Vilaça
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