Dádiva
Eu te avistaria mesmo em um baile lotado, entre corpos que se movem ao compasso da música e vozes que se confundem umas nas outras. E, para que eu fosse cativada por você, bastava apenas a sua existência, sem a necessidade de amuletos, presságios ou qualquer artifício de encantamento. A sua existência, em si, já seria o motivo de todos os meus motivos. E, se por você fosse convidada... Eu aceitaria dançar contigo. Engraçado, porque eu não sei dançar. Não costumo me permitir tal ato de liberdade... Mas me cativa a ideia de ter seus olhos em mim e rogar aos deuses para que aqueles minutos se dilatassem até confundirem-se com a eternidade. Ou, provavelmente, eu pegaria na sua mão, te puxaria para fora do salão e apreciaria as estrelas em um jardim adormecido, onde até o silêncio fizesse reverência ao te ver... E me fosse concedida a dádiva de ouvir a melodia da sua voz, atentamente, como quem escuta uma ópera inteira. Ficaria ali, te ouvindo, te desvendando e me envolvendo. Te sentindo existir, em lapso de liberdade... Sua voz soaria tão alto que talvez o próprio universo precisasse silenciar para escutá-la. Sim, você. Seus sentimentos, seus sonhos, seus desejos, seus medos e até mesmo os seus desapontamentos. Eu sei, é bobo me ver escrever sobre você. E me aterroriza a ideia de te aterrorizar ao ler. Mas eu sou imersa em melancolia. Amo escrever sobre e para pessoas vivas. Eu trato a poesia como um divino presente. P.S.: Eu só escrevo por quem me inspira...
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