Escrevi a chave do cárcere,
daí me vi livre.
Corri sobre a grama,
cheirei as flores,
nunca vi mais lindas.
O que percebo é a alegria
sobre meu olhar ingênuo,
pois, com as mãos nas barras, percebo
que, se escrevo,
é que elas sempre foram minhas linhas.
Continuar lendo
Os olhos falam mesmo
Se te olho, pois imploro te olhar,
Sempre dizem te procurar
Onde você não está.
Por isso reclamam.
As lágrimas não são o sinal de que vão chorar,
Mas tagarelice barata, com voz embargada,
De quem não faz a mínima ideia do que fazer.
Queres ver quando cantam,
Alegres de apertar os cílios,
E vão balançando,
Até parecem dançarinos.
Sei que sempre falam
O quanto são distraídos.
Dizem que bem lá no íntimo
Desejam muito estar contigo,
Travados nos teus caminhos,
E com certeza acompanhariam
Aonde quer que o va levar.
Continuar lendo
Hoje escrevo um manifesto,
E todo manifesto precisa ser visto,
Entoado aos ouvidos,
Admirado em telas ou esculpido,
Pois um manifesto precisa ser escandaloso.
Que loucura seria não amar aos gritos?
Onde tu estás?
Só essa hora
Este é o terceiro
Que amasso e jogo fora,
Pois preciso pôr pra fora
O que me é mais estranho.
A consciência, quem sabe,
Porque nada mais me reluz.
Nessa fase, até o dia é breu,
Um cego me conduz.
Se mostre logo,
Para cedo eu me assanhar
E de novo brincar como criança,
Que está aos poucos aprendendo a falar.
Aos anos, com certeza, saberá
Que, à idade que estou agora,
Quase nada lhe seduz.
O cansaço mora perto
E o sono viaja sempre bem cedo.
Por isso, imploro:
Onde tu estás?
Porque já estou sem caderno.
T.S
Continuar lendo
Eu briguei hoje.
Pensei do lado direito,
mas o esquerdo não concordava.
Então me deu um tapa.
Porém, o direito, enfurecido,
me disse baixas palavras,
prometeu socos e pontapés.
Eu gritava: “Calma!
Somos a mesma pessoa!”
Não bastava.
Tinham que provar suas teses:
que o seu lado da cara melhor enxergava,
seus dentes mais bonitos,
seu lado do nariz melhor cheirava.
Então, vamos à votação.
Eles anunciaram suas pautas,
mas aí, um escândalo:
o pé esquerdo roubou a outra sandália.
Denunciou o olho que viu.
O lado esquerdo da boca reclamava:
há dias não comia nada,
tudo porque a mão direita,
há dias, os tomava.
O nariz denunciou
o mau cheiro dessas práticas.
Fim de votação.
Perderam todos!
Direita e esquerda
votaram na ameba
que há anos nos infecta,
decompondo nossa razão.
T.S
Continuar lendo
Muito morro num dia,
por causa disso, desejo vida.
Morrer dói na maioria das vezes,
toda vida mostra que estou consciente
O medo de não ressuscitar é iminente,
pois morro pra ficar ausente.
Mas companhia também é um presente.
Nunca cheguei à decomposição,
porém, sempre que morro, nasce composição.
Isso também é autodestruição,
mas o último ponto me diz que,
depois da morte, existe reconstrução.
Mas morro mesmo.
Hoje morri de inquietação.
Tentei enterrar o corpo,
mas semente morta não permanece no chão.
Por isso, mesmo que morto,
ainda gera vida.
As larvas não me consideram podridão,
pois, se morro, não finjo
que vivo bem sangrando.
Morto não sangra,
mas descansa,
enquanto sonha
que é um novo embrião.
Continuar lendo
Eu estou sem poesia,
o dia é cinza e lamento.
Meus olhos, reclusos em suas funções,
não me propinam inovações,
só a métrica cítrica
que normalmente todos podem ver.
Porém, basta de tanta insensatez:
não suporto a normalidade
de querer ver por vez,
quando tudo é um amontoado de cores,
movimento e sabores.
Não sou capaz de normalidade,
de nascença poeta
e de vida alucinador.
Pois à história por onde vou
não basta o dia e a noite;
tem que ser tarde para os labores.
Necessário pensar em anormalidade,
que os olhos sensatos jamais irão enxergar.
É necessário mesclar a realidade
para, tal qual um café, adoçar.
Continuar lendo
Uma queda perpétua
Despenco e me debato.
Na escuridão, me sujo e logo me lavo.
Me alegro e logo me inquieto.
Não sei o que faço.
Um ordinário complexo fácil.
Esperando o fim, me acabo.
Me espatifo ou contínuo inteiro?
Pedaços completos em estilhaços.
Continuo em inclinação completa.
Pés, mãos e braços,
segurando no que resta.
Em total vácuo, enterrado,
sinto o embate, a colisão.
É confortável aqui no chão.
Porém, me quebro.
É rígido, acolchoado.
Continuar lendo
Tem dias que perco os escrúpulos,
E aquele velho monstro acorda.
Eu resisto com força, faço de tudo
Para que ele não se solte e quebre a corda.
Caso acontecesse, destruiria esse meu muito pouco,
Pois, independente, isso é meu mundo.
Desejo que ele se mantenha,
Espero que se contenha,
Esse homem tolo
Que se monstrenga,
E deseja que a alma pene num choro
Que há eras não me faz gosto.
Pois, por mais difícil que seja,
Me empenho pra manter o sorriso,
Mesmo que seja a suor e risco.
Faço de tudo para que a sobriedade seja meu emblema.
Por isso, seguro com violência
E nocauteio esse monstro.
Faço com que adormeça
E me preparo para contê-lo de novo.
Continuar lendo
No seu cheiro e cores
É a arte que eu vejo
O quadro que naturalmente foi pintado
Um cansaço que vai embora
É período que revigora
A terapia da minha mente
Observa-las sem perceber o tempo
E ansiosamente espero pelo fim do dia
Olhe para o laranjado do céu
É deslumbrante beleza que intriga
Esse é o único fim que se espera
Minha casa será feita nesse meio
Onde a hora não passa e se vive direito
Sem receio ou medo
Apenas com o som de passarinho e folhas ao vento
Continuar lendo