Noites ensolaradas
Tenho vivido dias escuros, noites ensolaradas, verdades sem sentido, mentiras bem contadas. Anseio retornar a lugares que nunca pisei, como se minha alma lembrasse de caminhos que o corpo não conheceu. Quero me livrar de fardos que ainda nem me pertencem, de dores que herdei em silêncio, de promessas que jamais fiz. Nitidamente confusa, atravesso o infinito de algo que pressinto efêmero — tão breve que talvez nem merecesse esse esforço. São tentativas frustradas de moldar um “eu” que já não sou. Sou mistura crua de ego e amor. Por longos tempos, vivi sem notar quem eu era, nem quem eu feria com minhas ausências. Hoje, carrego um espelho na alma — vigilante e implacável — que me segue até nos sonhos, exigindo presença. Mas por que é tão difícil me ver sem véus? O defeito pulsa claro diante de mim, e ainda assim, há um abismo entre enxergar e transformar. Como se desarma uma arma que foi forjada dentro? Como se acolhe o erro sem que ele devore o que restou de amor? E se por um desígnio da vida, alguém decifrar meu caos sem que eu diga mais nenhuma palavra...
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