As manhãs de domingo
Os cobertores com cheirinho de amaciante
As músicas sertanejas tocando na rádio
A fresta da janela te acorda como um beijo na testa.
Vovó está catando feijão na mesa da cozinha
O cheiro do café e bolo prontos para você
Na tv de tubo está passando seu desenho favorito.
No almoço, tudo é tão farto e suculento
A mesa está cheia de sorriso e gratidão
O horário perfeito da soneca dos mais velhos.
"Vó, posso fazer brigadeiro de panela?"
Ela consente com um sorriso carinhoso
Você se delícia com o doce, lambuzando os dedos.
Mal imaginaria que essas cenas tão bobas
Se tornariam o motivo de uma saudade maior.
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Sou um telespectador da sua vida amorosa
Já conheci todos seus pretendentes
Desejando a felicidade mais orgânica do mundo
E logo me espremia de tristeza no colchão,
Amaldiçoando todos.
Me perguntava quando você me notaria
Quando perceberia que eu estaria sempre ali
Tentando receber um pouco do seu carinho também.
Me maltratava criando cenários e sonhos
Quando nossos olhos se encontrariam
E com centenas de estrelas nas pupilas você me diria: Sim! Sim! Sim!
E tudo estaria perfeito.
Mas, por que não eu?
Por que não sou quem você deita no sofá espremido?
Por que não sou eu quem você escolhe partilhar seus desejos e medos?
Por que não posso explodir e dizer o que sinto?
Poder finalmente experimentar o calor dos teus braços, me aconchegar nos teus lábios.
Por que não eu?
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Faz um tempo que não durmo sem ver meus demônios criarem formas entre as sombras da janela aberta.
Faz um tempo que não sei me olhar nos olhos sem ver defeito em algum lugar.
Faz um tempo que não presto atenção nas batidas do meu próprio coração sem querer que ele pare de sussurrar lamúrias.
Faz um tempo que não saio na rua, que sequer cumprimento a vizinha enxerida e mal cheirosa.
Faz um tempo que morri em vida, e me esqueci de procurar uma cova para que a terra finalmente possa se saciar em paz.
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Sentados no meio-fio
Você, com o all star de cano longo, como se fosse um ser invencível,
Eu, com meus vans surrado e sujo, com o coração envergonhado em te ter tão perto,
Nossas mãos quase se tocam, apenas as pontinhas dos dedos se roçam delicadamente.
Compartilhamos um fone desgastado, ouvindo qualquer coisa de jovem rebelde.
O sol se despede de nós, e as estrelas aparecem como pequenas lanternas no céu,
Os aviões enormes brilhando entre as nuvens
Você os olha com um rosto maravilhado,
E te vejo, com um canto de olho tímido.
Imaginando estar dentro de qualquer um desses aviões, tão implacáveis e tão livres,
Vou poder dizer, o quanto gosto de você
E não vou ter medo algum de demonstrar
O meu amor, que não é mais segredo.
(Mas isso ainda são só pensamentos de um jovem medroso demais para se declarar)
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Ouvindo aquela música que te apresentei
Me lembro das nossas conversas
Das ligações que duravam horas e horas
Das gargalhadas de madrugada
E da vontade de se ver logo.
Infelizmente nosso amor não pode florescer,
Foi arrancado tão abruptamente
E não nego que sinto sua falta,
Mas vejo que está feliz com seu novo amor.
Então tento esquecer das nossas recordações
Mesmo que ainda procure no seu perfil
Algo que diga
Que também sente falta de nós.
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Faz quase um ano que sai de casa,
Com um sonho de ser livre na mochila
E com um trabalho tosco no supermercado.
Pagando um aluguel caro, imaginando
Ser um daqueles casais que pintam as paredes da casa e acabam se sujando, e magicamente
Fazem amor no chão, perto do balde de tinta.
- É por isso que não vejo mais filmes românticos.
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As telhas laranjas, consumidas pouco a pouco pela umidade e mofo, guardando histórias que viram passar durante anos.
O sol quente, machucando as costas dos pequeninos que vão a escola, que carregam sonhos dentro de suas mochilas surradas.
As roupas brancas estendidas no varal, dançam ao vento, como fantasmas que se vestem para lembrarem da sensação de ser humano.
Maritacas se escondem entre as folhas do pé de manga, parecem se divertir, em um mundo escondido.
Logo as panelas começam a cantar uma música, que desperta a fome, e a alegria de chegar em casa, depois de uma longa jornada.
- E então? Como foi seu dia?
O aroma da comida feita com carinho, os sorrisos que agradem pelo momento precioso.
O calor do fogão, o tilintar dos talheres, como sinfonias do cotidiano.
E a casa, em sua humilde glória,
Brilha com a luz das memórias.
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O som do rádio toca aquele velho blues
A chaleira suavemente apita
Avisando sobre a água quente no fogão
O bolo de laranja esfria na janela.
Nosso retrato empoeirado na prateleira
É iluminado pelo sol que se despede à tarde
Trazendo uma cena nostálgica, onde tirávamos aquela foto no lago.
Os patos correndo atrás de nós, esfomeados,
Sorrio ao lembrar,
E, quando me dou conta,
Caem as lágrimas.
O som do blues e o cheiro do bolo
embala minhas memórias
Me pergunto como aqueles dias se passaram tão rápidos entre nós
O dia se despede, deixando um riso teu
Abafado entre meu coração.
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artigos de jornais e folhas
noticiam a falta que tu me faz.
em grandes letras garrafais
revelam a tamanha saudade que
carrego no peito.
minha alegria está na página de desaparecidos
e o meu número abaixo, caso alguém encontrar.
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desde o dia em que riu
das minhas lágrimas
eu não deixo
cair mais nem uma.
é como uma ferida aberta
ainda que coloque sal
e sinta uma dor
agonizante.
eu não choro.
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