Segure minha mão, estou com medo de mim.
Segure minha mão, o mundo é largo demais e a minha boca está amargando.
Segure minha mão, eu não quero desaparecer de verdade.
Porque desaparecer não significa só torna-se vento, há dores no remanso.
Segure minha mão, tentei dormir para me diminuir e, acordei mais febril.
Segure minha mão, meu coração está ficando congelado, e o ar de inverno me trancafiou.
Segure minha mão, não consigo enxergar diante da neblina.
Segure minha mão, meu corpo está me cansando e só ouço meu eco.
Segure minha mão, eu não quero ficar novamente tão longe.
Segure minha mão, eu preciso de uma brecha que me aqueça um pouco.
Segure minha mão, para que o ponteiro não me torture, pois minha cabeça dói e parece que não há ninguém na cidade.
Segure minha mão, pelo menos por meia hora, até que o dia amanheça aqui dentro.
Faz tempo que só há breu, nunca amanhece.
Segure minha mão.
- Flavi Lima
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O cheiro do ambiente desocupado pela presença.
O rosto a encostar que não procura mais seu deitar.
As horas preguiçosas que agora são contadas.
O ciclo que preparou o costume de estar lado a lado, ainda parece presente, em cada desfazer.
É como se mudar de uma casa, cada peça retirada deixa uma lembrança.
A roupa, que quase se tornou pele, suor e sabonete, não esquenta mais pelas redondezas.
O timbre da voz, o eco do riso, um coçar na cabeça são detalhes que ficaram mais visíveis no ontem.
A mínima mudança no gesto, que era sentida, se tornou uma incógnita.
Aquele tédio no sofá, que agora entrelaça o formato de um fantasma.
O silêncio que era confortável, ficou longo demais.
Se acostumar, perceber e se perder.
Inalar a respiração, replicar as meninas, beber dos gostos, conviver com o enjoar.
Tudo, agora é só uma procura, uma digital, um frasco derramado.
Algumas ausências são inundadas de cheiros.
Por: @flavipoetisa
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Tantas vezes nas madrugadas, nos finais de semana, no início dos dias, me flagrei tentando descrever algo que parecesse com uma lágrima ou com um grito.
E tantas outras vezes, indaguei o motivo de continuar escrevendo.
Porque, o que saia de mim, doía, incomodava, se debatia, lastimava.
Ficava cutucando as mesmas feridinhas, em um masoquismo inconsolável.
Como se arranhasse minha estrutura monótona, tentando espremer até a última gota de desespero.
Doer, era uma necessidade voltada para vazar, para estancar o sangue.
Arder, arder, arder, explodir de alguma forma, em algum escanteio, lançar para o mais longe possível.
Era o único retorno para o alívio, mesmo que por alguns minutos.
Escrever era uma necessidade que estava além de uma inspiração.
Inspirar e expirar, se expulsar, não conter tudo na palavra não dita, na falsa e frágil neutralidade da face.
Eu escrevo para sobreviver, fiz dos meus dedos uma peneira de agonias.
- Flaviane Lima
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