@mgcabrall @estranhopoeta
Poema

CORRI ATÉ ONDE VOCÊ VOOU

No momento em que corri, senti a liberdade me abraçar tão forte que tive medo de voar e não saber como voltar ao chão. O cheiro das flores inundando meus pulmões, o vento cobrindo meu corpo feroz, o solo anunciando nossos passos. E, mais uma vez, descansamos nos verdes pastos, sem mal algum. Na tentativa de sermos adultos, entramos em ambiente hostil, sem qualquer proteção ou garantia. Fomos atingidos, sem novidades, pelas mãos frias da insegurança, que puxaram nossos corpos para longe um do outro, sem perguntas. Observando de longe, meu coração aflito foi silenciado pelo ego e pelo medo. Os seres coadjuvantes em nosso enredo serviram de muros para nossos encontros, mesmo com a esperança, maltratada, de manter nossas vidas conectadas. Eu fui egoísta em não ter ao menos segurado sua mão pela última vez. Agora, correndo com a mente em turbulência, em direção ao desconhecido, eu não pude sequer controlar as coisas que sinto. Não era real, pelo menos eu esperava que não fosse. Mas tudo ficou ainda mais sombrio quando, de longe, observei seu corpo tão delicado descansar na cama eterna da saudade, sem nenhuma despedida. Mais uma vez, acordo tentando entender se a dor causava a perda ou se a perda causava a dor. Doía, como se me jogar contra a parede, mostrar meu descontento, não me afligisse dolorosamente a cada momento. Entendi: os filhos enterram os pais, não os pais enterram os filhos. E talvez a culpa disso acontecer esteja na minha incapacidade de entender que a perda encerra o capítulo, sem pontos de continuação. Eu tentei correr o mais rápido que pude, atravessar o tempo e voltar para quando nós ainda éramos um do outro. Meus olhos na tormenta anunciavam minha coragem de enfrentar meus medos. Frente a frente com minha maior luta emocional, caí ao solo pedindo perdão. Encontrei-me nos braços de quem um dia te trouxe à vida e também te segurou na morte. Que perdoe a minha ausência, a minha pouca maturidade e a minha incapacidade de entender que jovens da nossa idade não sabem falar sobre o amor, muito menos sobre a falta dele. Por isso, corro por quem você já foi um dia e por quem você me transformou. As flores ainda cultivo, esperando correr contigo nos campos bem no momento em que você voou. Solo Enlameado

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