Ela se alimenta de quem somos
E deságua no mar da coletividade
Ela se banha de vislumbre
E encanta a sociedade
Seu fluxo nem sempre é igual,
Ele retrocede,
Promete,
Estanca.
É vívido como os olhos de uma criança
É misterioso como o corpo de uma mulher
Ela conversa com línguas mortas
Entalha pedras tortas
Serpenteia sobre a civilização,
Nos sonhos encontramos sua confirmação.
E antes que eu entregue o segredo,
Meu maior medo,
É de que por excesso de imaginação,
Eu me perca da realidade,
Mas, o que seria então, a realidade senão invenção,
De uma humilde humanidade?
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Ela te amou. Mesmo com vc arrancando camada por camada
Se ela não se mostrou foi porque você não quis ver
E a sua desculpa? Que era inocente demais
E ela realmente não é mais a mesma
Você teria se permitido
A mesma vulnerabilidade
Se não fosse um especulador nato?
Berço dourado para delatar os fracos
Seu lucro embala seu sono à noite?
Ela tremeu, invadida, exposta
Mas eu já sei a sua resposta
Sei de cor sua metodologia
Me diz, quem vai estancar a ferida?
Onde começa e onde termina?
Ela jurou não reproduzir seu jogo
Mas vc permanece sendo o Outro.
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Que vc seja imbrochável com ela
Que vc deixe ela assada
Porque eu sei agora, que eu relevei quando você brochou comigo
Para que eu fosse amada
Com uma mão eu mato o amor
Com a outra eu amo a morte,
Seria demais pedir que a dor
Me torne mais forte?
O coração sangra e grita de desespero
A morte ainda se resguarda de silêncio
A paixão queima até o fim
A morte espera por mim
A paixão transforma a morte no seu espelho
E se suicida
Renasce com mais frescor e brilho
Vive intensamente como se barganhasse
Até que encontra consigo mesma
Não pode ir dessa maneira
A morte então seduz mais uma vítima
Dizendo belas palavras para ir de forma bonita
E pela primeira vez ela tem medo do além
Será queo amor sobrevive ao momento final?
E agora, vai amar a quem?
Vai perdoar seu eu spectral?
A morte simplesmente a observa.
Ela parece atrair e prometer
Mas sabe-se que a morte é incerta
Como pode existir algo melhor que viver?
De repente percebe que não amou em vão
A morte não destruiria seu coração
Se despediu e foi em paz
Amou enquanto foi capaz.
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Noite de lua cheia, manhã fria
De tanta beleza e melancolia
Nenhuma certeza.
Apenas a noite. Vazia.
Na noite me lanço
Na noite caço
Faz-se o dia.
E o sono trago
Cerco-me de escuridão e descanso os olhos
Cansados de sobrevoar
Cansados de verter
Cansados de tocar
Vejo apenas a lua da minha janela
É o único brilho que preciso
Nossa conexão secreta
É meu último abrigo
Do conhecimento que ela guarda
É apenas o reflexo
Imagem da minha alma
Prisioneira de um altar complexo.
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Uma mulher se despede. E não pode chorar
Ela ama, mas não pode demonstrar
Não por algum motivo especial além de simplesmente não saber como
Eu escrevo sobre saudade mas não sinto
Escrevo sobre a mulher mas não sinto nada
A perda da vida que não viveremos é mútua
Mas eu acredito que eu sofra mais
Porque falar sobre saudade é mais compreensível
Do que falar sobre a mulher que não sabe dizer adeus
E você viver essa falha sabendo que ela não vai se mover
Pois mesmo que confiemos no tempo
A mulher muda, mas não você.
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estarei ainda lutando por ela?
desejando que se supere e me ame?
que o amor seja a cura, que haja um deus?
não importam minhas perguntas ela é sempre adeus
e objetividade
o meu esforço não se mede em habilidade
é o meu cansaço que impressiona
é acordar com o despertador e levantar
infelizmente eu sigo seu exemplo
essa tristeza que bate ponto, a todo tempo,
tem raízes para além de gerações
mas a ancestralidade, termina em mim
e não sobram exigências
apesar das suas expectativas
o passado é cascata
o presente é espera
e o futuro é condenação
não vejo esperança de fugir
vejo a obrigação de cumprir o que é certo
vejo uma cobrança indeterminada
que não se permite nada além
de estar ajustada.
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O calor do café passa dos lábios para a pele
Os tremores permanecem
A disposição passa dos olhos para os dedos
E voltam
O silêncio cerca e fere, com gosto amargo e textura áspera
A essa altura não há como ser confortada
A solidão persegue a ponto de cansar
E mesmo definhando não consigo chorar
Se as lágrimas descessem, a emoção passaria
Não é permitido entregar as forças,
É mais fácil ser mais uma pessoa fria
Se eu me entregasse ao choro, talvez entendesse
Que tipo de fim dou à minha história
Mas é mais fácil convencer-me a permanecer forte.
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Sim. Enlouqueço. Perco a razão. Pelas mínimas coisas.
Se não fosse através da escrita, provavelmente estaria cantando e dançando.
Porém, pra mim, não seria nada belo. Seria algo extenuante.
Minhas costas dóem, meu joelho e cabeça também.
Eu só poderia dançar se passasse essa dor. Se houvessem movimentos que causassem o horror que é meu corpo.
Gorda, grande, esquisita.
A delicadeza seria a ferida.
A melodia arranharia agonia.
Os músculos sangrariam.
Rastejaria para morte. Arrancaria cabelos. Torceria as palavras.
E foi precisando dançar que escrevo agora.
Se não fosse chocar as pobres almas, eu dançaria e cantaria...
Ainda tenho a escrita. Mas ela vem se tornando insuficiente. Está transbordando.
Acontece que meu corpo é digital, abstrato, formal.
Estou suando pixels. Preciso falar mas só sei sentir com esse corpo: virtual
Onde o vício é virtude, sedentarismo intelectual.
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Interrompo o ciclo natural da matéria
E consolido em ato seu escape de si
A válvula ensina a jorrar
O sonho ensina a dormir
A fonte das palavras é proibida
E por isso elas se insinuam
Não se deve possuir as perguntas
Que nem a justiça se propõe
A vida não termina no fim da ideia
Vida é esboço, exceção
Reconhecer precede a reação
Vigiam nossa cadência
Renunciam os verdadeiros de alma
O olhar não basta como intersecção:
É preciso estampar na cara.
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