O que a parede viu
Eu estava ali antes da bebida, antes da discussão, antes do barulho seco. Vi vozes se perderem quando ninguém mais escutava. Vi o medo crescer onde antes era só casa. Não entendi palavras, mas senti o impacto. O chão tremeu. O silêncio ficou pesado. Ouvi um nome ser chamado como quem pede ajuda sem saber pra quem. Depois, ele veio até mim. Cambaleando. Tentando ficar de pé quando tudo já caía. A mão encostou em mim não pra sujar, mas pra não morrer ali. Eu segurei o que pude. Guardei o formato dos dedos, a força que restava, a tentativa de continuar. Anos passaram. Mãos pequenas me tocaram. Buscando entender o que ninguém explicou. A marca saiu de mim. Mas não saiu de quem viu. Eu sou só parede. Mas naquela noite, fui testemunha de uma família quebrando sem saber como se consertar. (efeliciano 17/12/2025)
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