Fundo do poço
Só quem já desceu ao fundo do poço e caminhou pelo vale da sombra e da morte sabe o frio que dá na barriga quando se está em queda livre, prestes a cair e a transformar-se em molho de tomate no chão. Até parecem palavras fortes, palavras chocantes, mas a verdade é que a vida inteira é forte demais. O universo é chocante. O universo é demasiado vasto, e nós somos apenas pequenas coisinhas cheias de prepotência e arrogância. Passamos a vida toda tentando chegar ao topo para, no final, voltarmos para debaixo da terra. Trabalhamos demasiado para esbanjar o que não temos. Às vezes pergunto-me qual é o sentido disso tudo. Sinto-me perdida em todos os sentidos. Quem sou? Para onde vou? O que devo fazer? Em que devo acreditar? Sabes qual é a coisa boa de chegar ao fundo do poço? É que, quando estás lá, tens apenas duas opções, caso sobrevivas: ou ficas ali, à espera que a morte venha e te abrace como uma velha amiga cheia de saudades, ou levantas-te. Mas, caso escolhas levantar-te, tem em mente que o caminho de volta será difícil. Será cheio de desafios. Como eu disse no início deste texto, terás de atravessar novamente o vale da sombra e da morte. Terás de ficar cara a cara contigo mesma e decidir lutar, mudar tudo aquilo que te fez chegar lá em baixo. Acho até engraçado como, por vezes, precisamos de cair tão fundo para finalmente nos levantarmos com determinação. Como se a dor nos ensinasse aquilo que a tranquilidade nunca conseguiu ensinar. Já que a vida é tão frágil, que pelo menos escolhas vivê-la de verdade. Sem medo. Sem a obsessão de chegar ao topo. Porque, no final, serás enterrada debaixo dele. Nicky Santos
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