Nada melhor para destruir nossas fantasias
Do que a realidade.
A realidade do tempo
Da mudança
Da flacidez
De ser outro e não mais o mesmo.
Então o sujeito percebe seus defeitos
Seu armagô
Vê que nada é como é e nem como foi
Então o sujeito se decepciona
Mas como se pode viver sem ter fantasias?
Continuar lendo
Ela surge dos mortos mais uma vez
Em um momento aleatório de um dia talvez
Lembranças de uma época vem à tona.
As coisas giram e retornam
E retornam
"Porque?" Se pergunta
As coisas nunca tem fim.
Olho para ela e me sinto um menino
Carrego comigo o dia que nos conhecemos
Lembro do dia que nos separamos.
Ela retorna das sombras
Há tudo em seus olhos
Tão certo
E tão errado.
Ela caminha em minha direção
Observo ela
Sua boca
Seus olhos.
Nunca reparei na boca de uma mulher
São sempre os olhos
Sempre os olhos de qualquer um.
Agora gravo cada detalhe de seu corpo
O tempo passa
Uma ruga surge aqui
Outra ali.
Beijo ela e tudo acontece
Conexão como engrenagem numa fábrica de montagem.
Passo por onde vivia todos os dias
Não resta sombras
Tudo se espiralou a um ponto.
Já não somos mais os mesmos
Eu mudo tanto
Saio pela metade
Pulo de grupo em grupo como se não me aceitassem
Como se não fizesse parte.
Continuar lendo
A luz do relógio iluminando a parede
Minhas mãos ensanguentadas
Manchando Minha camisa verde
Minhas pernas paralisadas
Não consigo me acalmar
Não consigo parar de pensar
Uma faca entra perfurando
Você sente ela rasgando
Sua vida passar em um minuto
Não sobra nem mais um segundo
19 anos no auge da juventude
E tudo se perder quando uma ideia te ilude
Cheguei em casa sem saber onde pisava
Não via nada, nem o olho piscava
Na escada cambaleando
Como um acordar, como um bêbado andando
Sirenes em algum lugar
Tremia só de escutar.
Minha cabeça pesada
20 quilos nessa caminhada
Cena a cena retornava
Uma mistura de ódio e violência que tira minha paciência.
5 da manhã o sangue grudado
Tento tirar com um banho gelado
Minha cabeça doi
Sinto um frio na espinha
E a sensação de que essa vida não é mais minha
No sofá reclinando
Sentia o olhar invisível dos meus pais me julgando.
No bar com a minha mina e música rolando
Um cara na minha direção caminhando
Me esbarra querendo tirar satisfação
Penso "não, hoje não "
Minha cabeça dói
Não sei o que aconteceu
A mina caiu
E uma faca entrou em cima do quadril
Perdi o controle, meu sangue subiu
Encaro os olhos cerrando
E 80 quilos desabando
Você sai pra tomar um ar
Com a esperança de alguma coisa melhorar
Um dia tranquilo, uma noite calma
Termina com a penitência da própria alma.
Meus braços tremem incontrolávelmente
Respiro, o ar não vem
A fumaça do cigarro espiralando no espaço
Um momento
Um erro
Um rumo sem volta
Você comete
Pela vida toda você se arrepende
Continuar lendo
Se passaram 5 anos
10 anos
E nada nunca esteve a caminho
Nada nunca fez sentido
Observo sem saber o que olhar
Caminho sem saber onde pisar.
Tudo sombra de objetivos expirados
Tudo consequências de decisões mal tomadas.
No fim das contas tudo é nada
Oco
Vazio
Uma armadura falsamente densa
Escondendo um nada
Um demônio que segue pelas sombras.
Se tudo isso fosse diferente
Se tivesse escolhido o que deveria
Se tudo fosse como tudo deveria ser
Um outro demônio com outros ohos
Outra face
E tão medonho quanto
Para tudo aquilo que seria se tudo fosse como devia.
Continuar lendo
Procuro em mim algum propósito
Algo que faça ter sentido
E não encontro nada.
Saio-me e vou procurar com a vista algum pensamento
Olhando sem olhar o céu noturno
Com o vazio da alma refletindo o vazio do universo.
É fácil se perder
É fácil encontrar uma resposta e fechar os olhos
Também é fácil ficar doente de uma doença irreal e sem antídoto.
A metafísica das sensações mentais é transfomada nas físicas sensações de tormentos
A mente transborda para o corpo
E o corpo treme em agonia.
Nas escuras noites da madrugada
Os segundos do relógio ecoa pelo silêncio
Como grãos de areia em uma ampulheta
A colocar medo e sonho na caveira estampada.
Solitário e inteiro
Inteiramente bem.
A social e sentir falta
Falsamente em companhia.
E um sentido em si nunca respondido.
Continuar lendo
Acordo e a primeira coisa que surge é uma ansiedade
É um demônio que olha para mim
Me recuso a abrir os olhos
Me recuso a vê-lo.
Tenho sono e não durmo
Uma sensação indescrita corre pelo corpo
Real
Violenta
Um murro de consequências.
Continuar lendo
De baixo de um sol quente
Sob um boné russo
Um rosto marcado e sofrido expõe um sorriso.
Seu corpo suado entrelaçando um político de sorriso amarelo
No auge dos seus 40 mas aparentando ser mais velho
Sorri para foto
Implorando mais um voto.
Por lugares não passados a anos
Não frequentado a décadas
Finge humildade
Para uma platéia que espera credibilidade.
De sapatos e paletó
Discursa um sentimento de dó
Nas mentiras
No fingimento
Na real
Não possuem sentimento algum de lamento.
Como uma deusa hindu
Seis braços pendem de seu tronco
Dois a vista em aperto de mão
E quatro ocultos na corrupção.
Continuar lendo
Um cara briga
Acaba sendo esfaqueado
No meio da rua seu pescoço jorra sangue
Cambaleante e fraco tenta tapar a ferida
Sua incapacidade é tanta que cai no chão
Deitado ali tendo espasmos sua mente se afunila ao nada.
Numa estória fictícia alguém correndo ia sair da multidão para ajudar
Mesmo já estando morto.
Mas é o espetáculo de uma TV hiper-realista
Um teatro sem atores.
Ninguém sai da multidão e carros passam sobre o sangue
Seus celulares, antes de seus olhos, captam todo acontecimento.
Na rua
Nas manchetes
Na internet
Se aparecer
Será apenas mais um corpo.
Continuar lendo
Um tiroteio numa esquina
Um assalto ao banco
A morte de uma menina
Uma guerra em algum canto
Primeira página nos jornais semanais
Vazio nas capas mensais
Hoje algo novo que amanhã será velho
Um dia destrui todas fotos que tinha
Pra não ser atormentado pela agonia do tempo.
Agora as imagens que sobreviveram trazem uma sensação inesperada.
Agradável
e vivaz
De uma época que
aparentemente
É muito melhor que hoje.