Compoemas @alepoeta89
Drama

Crê ser

O Caminho dos Naufragados ​Olhei para o nada e me vi. Havia uma cobrança e um pranto de dor; uma angústia no ar da escuridão. Não entendia nada, mas sentia — isso sim, sentia, e sentia muito. Não havia antídoto, mas a dor cobrava por cura, por alívio. ​O meu grito não era ouvido, mas era insuportável. Estatifiquei-me. Um pranto desabou como tempestade em alto-mar. O mar é sangue, e os trovões e relâmpagos revelam o inimaginável. Por incrível que pareça, no momento mais intenso, a tempestade trazia em mim uma lufada de vento calmante e tranquilizador. A tormenta tendia a parar; as gotas afinavam-se, trazendo um som menos destruidor. Finalmente, a chuva cessou e uma sensação de terror voltou a surgir. ​Olho novamente para o nada onde está minha alma aflita. Ela não está tão descontrolada, mas não a vejo; sei, contudo, que ela olha para mim com um olhar medonho, frio e calculista. Sei que sua aparência é feminina: tem cabelos lisos e compridos em forma de rabo de cavalo, olhos negros, lábios grossos e salientes, e nariz fino como o rosto. É magra. Sua imagem é em preto e branco, um cinza nítido. Sinto que não posso mais vê-la como no primeiro instante — um poder que ela possui e usa intensamente. Isso me cansa, pois tento resolver esse enigma aterrorizador. ​Baixo a cabeça. Sinto-me tão insignificante quanto um mosquito que suga um milímetro de sangue antes de um impacto mortal.

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