Tatuagens Fora da Pele
Ela entrou pela porta do escritório. Estava tudo calmo. Até ela aparecer... Camisa social branca. Alguns botões abertos. Aquele cabelo cor de ferrugem, mal preso no que deveria ser um rabo de cavalo — metade dele simplesmente desistiu e ficou solto. Minha colega também a admira. Ficou animada com a chegada dela. Eu também. Mas não havia o que dizer. Então apenas observei. Fingi não estar afetada pela presença turbulenta que parece entrar na sala junto com ela. Fingi não reparar em cada traço das tatuagens. Fingi não imaginar como seria descobrir, com minhas próprias mãos, o que havia por baixo daquela camisa. E o perfume dela... Maldito perfume! Ficou em mim sem que ela sequer tivesse me tocado. Queria um único maldito motivo para que, da próxima vez, você viesse até mim em vez de ir até a minha colega. Mesmo que fosse apenas para entregar alguns documentos. Eu queria que fosse eu. Só isso. Eu queria que fosse eu. Se você soubesse... Você é o elefante na sala em que todos os dias eu preciso fingir que não vejo. Ou talvez não. Talvez o elefante seja isso que está crescendo dentro de mim. Esse sentimento inconveniente, imprudente, quase indecente, que eu tento esmagar antes que crie raízes. Mas olha que hipócrita eu sou. Aqui estou eu, mais uma vez, escrevendo para você. Como se escrever não fosse justamente a maneira mais bonita de admitir que já não consigo fingir que não sinto.
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