Não existe um ponto de equilíbrio:
A marca deixada pela decadência
Arde, exige respeito, cobra caros
Impostos da consciência.
O destino corre por uma trilha
Obscura, o tempo se mostra severo,
A dor não é mais combustível
Para escrevinhar algum verso.
O passado impõe um medo atroz
Onerando o presente cuja vassalagem
É homérica e não há como pedir
Socorro através de mensagem.
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Estou angustiado, ferido
Entre os caminhos da perdição.
Não suporto mais tanto atrito
De estar sempre em vil submissão.
Estou nalgum lugar pedregoso
Chorando um choro sufocado.
Tenho um sentimento maldoso
E que me deixa amordaçado.
Tenho em mim toda a suspeição
De um tempo que não mais voltará.
Sinto a febre duma infecção
Hipocondríaca que surgirá…
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A escuridão diurna se tornou meu lar.
O passado ainda arde meu peito e
Mostra-me imagens que eu quis destruir.
As batalhas se intensificam e perco
As esperanças de vencê-las. O medo
E o pânico não somem, tampouco fica
Mais fácil conviver…
Estou cada vez mais acuado, isolado,
Abandonado, amordaçado. O sol não
Mais aparecerá – a aurora não muda
Mais a cor do horizonte e nem ao menos
Tenho o poder de me despedir: minhas
Forças são exíguas diante, diante, diante
Das coisas que não consigo ver.
Não me resta mais tempo para
Desculpar-me com meus irmãos de armas
E apenas o meu orgulho permanecerá
Registrado nas lembranças…
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Numa parte do tempo não sinto
Nada, noutra parte sinto aversão
– Aversão a mim mesmo – nas
Noites sem substância é quando
Percebo o eco dessa situação.
Invejo os marçanos, os loucos
(Esses são livres), sou cativo
Da minha própria humanidade
E que tenta escrevinhar em troca
Da alforria e poder viver do
Jeito que me der na telha.
Já não tenho os arroubos
De idealista, o cansaço
Sempre me vence, o cansaço
Que não sei donde vem; todavia
Ele vem e me joga contra as cordas,
Um cansaço que percorre o abismo
Da minha alma cega e aflita.
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Sem ponto de partida nem de chegada,
Uma ideia lúgubre, vil e chagada
Aparece e perturba a calada
Alma. Cada caminho dessa jornada
Bate sem dó na mente amordaçada,
Humilhada, temerosa e ilhada.
O desejo de morte é lancinante,
As perdas se acumulam no instante
Em que o pensamento é um tratante.
A vida é pesada e negativa,
O passado é uma grande chama viva
Que se alimenta de forma festiva
Da falha, do medo, da dor, da tentativa.
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Não, o passado ainda não passou
E defronte ao novo presente,
O cansaço é vil e pesado.
A esperança um dia se calou,
Perdeu-se nas entranhas da mente
Num pequeno momento ilhado.
A dor é constante, nunca falha,
É tangível e tão verdadeira
Quanto um sonho sem um sentido.
A vida corta feito navalha,
Acaba-se da mesma maneira:
Com todo sentimento ferido.
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Domingo chuvoso, cruel, pleno em tédio.
O mundo mostra o peso das suas ações,
Das suas escolhas sem nenhum remédio,
Das existências sem paixões.
Os pensamentos estão nublados,
O tempo é deveras escasso,
Os sentimentos estão ilhados
E cada escolha é um erro crasso.
Não há mais muitas possibilidades,
O spleen bate forte no espírito
E os olhos veem só as calamidades
Que surgem com um fúnebre rito.
Sente-se abalar toda fé
Nesse mundo debochado, desincerto,
É sempre difícil de se manter em pé
E deixar a esperança por perto.
Até parece um comodismo banal,
Um desejo ingênuo e servil
De se acostumar com o factual
Por mais que seja algo vil.
A consciência pesa por um delito
Não cometido, por um drama
Perigoso, inflamado e maldito
Que só cresce em sua fama.
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Não consigo me ver no futuro,
É como um sonho abstrato, impossível
De ser decifrado, delineado numa
Simetria horrível e intransferível.
É um abismo obscurecido onde
O céu não alcança – abandonado
Por Deus e por todos, perdido
Nos mapas e por vezes amordaçado.
Cada desejo horrendo nasce, cresce e
Torce cada fibra viva do coração:
É tal qual estar na horrenda fornalha
E não ter mais fé nem razão.
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Nada muda, mas tudo permanece:
As coisas marcham numa procissão
Interrupta, fúnebre, calada
E sua essência mostra roxidão.
Não existe mais nenhum retorno:
A dor é algo que vai e que vem
Sem destino certo, sofre-se com...
Com as escolhas que estão além…
O espírito tortura-se sem
Saber qual cicatriz penetrante
É a que deveras doí – a febre
Domina o nervo delirante.
Nada muda, mas tudo permanece
E no crepúsculo amarelo,
A solidão se achega, vive
E se esconde nalgum castelo.
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Alta madrugada, nada é seguro,
Apura-se o perpétuo sofrimento,
A agonia afronta o pensamento,
O passado parece com o futuro.
O gosto na boca é como veneno,
Cada ato feito é um ato desumano
A corromper sem piedade o humano
Coração seco, calado e pequeno.
É uma verdadeira loucura racional,
É uma expressão Ardente da podridão
Da vida, é uma complicada condição
Das mais pura sanidade irracional.
Tudo permanece na desconfiança,
Na rouca ingratidão que conspira
Em si, no olhar que reflete tanta ira,
No atroz castigo que vem sem tardança.
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