Não Deveria
Não deveria, mas acomodamos a dor(...) Fizemos espaços onde não havia e fomos encaixando-a ali até que dali ela não precisasse sair. Alimentamos, e fizemos ela crescer. ela cresceu tanto que faz parte de nosso nós e nem parece doer. Aliás, já não dói mais como doía, já não nos faz sentir como sentia e ela está ali, ainda viva e acesa e ainda fria. Que diferença faz? Não deixamos ela ir. As vezes damos bom dia, ela sai do seu cômodo logo cedo, e passa o dia do lado de fora do peito, acenando com as duas mãos, até que a gente percebe que já é noite e depois de muito sentir é hora de colocar para dormir. A dor não se vai, ela ainda está ali. Não deveria, mas acomodamos a dor(...) Pois é mais fácil viver remoendo com ela, mesmo sendo triturado por ela, do que jogar ela ali, bem por ali, ou bem ali. É mais fácil manter ela ali. Afinal ela desfez o nosso eu, ela derrubou o nosso mundo em formato de lágrimas Ela te fez sentir. Ela te ensinou existir, ela te fez sair de algum lugar ou até mesmo permanecer ali. Não deveria, mas acomodamos a dor(...) E é normal! Pois na vida acostumamos guardar coisas, pessoas e lugares, esses mesmos que se tornaram dor, só porque antes de serem dor, eles eram algum tipo de amor. Não deveria, mas trocamos os sentimentos a cada momento Pois tudo o que se parece com o amor que nos abrigava hoje é a dor em que nos ampara. Não deveria, mas ela vai ficar ali até que a gente perceba que na vida há outras belezas, outros sentimentos que nos fazem sorrir E de novo recomeçar a viver e sem a dor que veio na ausência do amor Conseguir de alguma forma seguir; A vida está aí e dessa vida é preciso extrair, algo bom para novamente, começar a existir(...)
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