"Blonde"
Você pintou os cabelos de loiro, e eu fiquei pensando no que dizer, porque algumas cores são só cores, mas essa parece ter escolhido você. Como se os fios, antes tão escuros, agora guardassem um novo amanhecer. O Sol também é dourado, e talvez seja por isso que aquece, espalha calor sobre o mundo, mesmo quando ninguém lhe agradece. E há algo desse Sol nos seus cabelos, uma luz que chega e permanece. O ouro também tem esse tom, brilha sem precisar se explicar, é raro, precioso e silencioso, não precisa de voz para encantar. E, embora o ouro brilhe sozinho, há brilhos que ele não consegue alcançar. Penso também no trigo maduro, dourado sob a luz do verão, crescendo ao sabor do vento, balançando como uma canção. Talvez seus cabelos tenham roubado um pouco dessa mesma vibração. E há a luz do fim da tarde, quando o céu começa a se despedir, pintando tudo de dourado antes de a noite surgir. É uma luz breve, quase tímida, mas que faz qualquer paisagem sorrir. Lembro das estrelas mais claras, das que parecem querer se aproximar, pequenos pontos dourados no escuro, tentando a noite iluminar. E pode ser essa a graça do loiro: ser luz mesmo quando o fundo é o luar. Mas nenhuma dessas coisas explica o que eu vejo quando olho você, porque o Sol pode aquecer o mundo, o ouro pode reluzir e o trigo pode florescer, mas nenhum deles, por mais dourado que seja, não conseguem superar a você. Você mudou a cor dos cabelos, mas mudou também o meu jeito de olhar. Agora, quando vejo algo dourado, é impossível, de você, eu não me lembrar.
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