Dor e perda
Toda verdade por mais cruel que seja sempre deixará a dor, mas depois, ninguém mais será inocente. Todos veremos de frente as nossas quedas e tropeços, as nossas decisões e caminhos tomados, os nossos sucessos e nossos fracassos. Chegaremos ao tempo em que todas as verdades foram ditas, e que nada mais nos deixa tão mais transparentes, do que as nossas próprias palavras. A vida deu voltas e tivemos a chance de ter vivido o grande amor, e vivemos, enquanto foi possível, enquanto o ceder ao outro foi tolerável, sobretudo para um lado, enquanto se conseguia fechar os olhos para não ver o defeito de quem se ama. O caminho de cada um foi ficando distante naturalmente, os objetivos ficaram difusos, mesmo que o sentimento ainda sinalizasse alguma sintonia, foram as águas ficando turvas. O sentimento nunca vai acabar, o amor, e por conta desse amor ainda é possível pensar no respeito, em entender que o outro cansa, entender que existe um limite para tudo, e mesmo com o coração partido, se faz o esforço para deixar ir, mesmo implorando para que o fim não venha, sangrando por dentro sem ser notado, com a dor latejante de uma ferida aberta, deixar ir a pessoa que foi mais do que esposa, mas foi amiga, irmã, mãe e pai nas horas mais escuras que a vida pôde trazer para alguém. É uma dor, obrigada, uma dor que não tem ninguém a quem recorrer, pois o único refúgio conhecido agora está de partida. Não sei se teremos tempo nessa vida para nos encontrar novamente, só sei que quanto menos tempo a vida me deixar tal lembrança, mais penso ser possível chamar isso de vida, seria uma graça dos céus, e talvez, viver fosse menos penoso, pois agora, a razão para seguir em frente não há mais.
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