O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios
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Às vezes me pego pensando
Se águas dos mares
E as nuvens do céu
Vão se encontrar novamente
Ou se em algum momento
Os sentimentos mundanos
Se somarão,
Ou os sofrimentos do mundo
Acabarão
Mas não
Isso é apenas uma ideia ingênua
Pois o que seria do mundo
Sem o sofrimento?
Como seria o mundo
Sem a vitória dos mais fortes
Sobre os mais fracos
Sem essa arrogância cotidiana?
O mundo sangra, chora e grita
E essa é a ordem natural das coisas
Um constante estado de desequilíbrio
Onde tudo sempre corre
Em direção à ruína
Pois, após uma ferida, é impossível
Voltar a ser como antes
E após tudo acabar,
É impossível fazer as coisas retrocederem
A seu estado original.
Será isso que alguns chamam de pessimismo?
Creio que não.
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Às vezes
Precisamos
Mentir para nós
Mesmos
Para que,
Em momentos
Breves,
Consigamos
Ser felizes.
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Às vezes, quando estou comigo mesmo,
Sem fazer nada; acabo sempre me entretendo
Com a minha mente, mas em momentos assim
Começo a pensar em coisas alheias;
Em coisas que odeio de verdade
É como se fosse um círculo vicioso de ódio.
Uma raiva inimaginável toma conta de mim
De maneira que nem mesmo consigo
Reconhecer a mim mesmo,
Como se um demônio entrasse em mim
E me fizesse pensar fundo
Em coisas que procuro evitar,
Mas sou eu, sempre sou eu.
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-Ah, é isso que tu queres?
Nunca diria algo tão sórdido
Pelo que sei, quem mais pensa
Mais precisará ficar calado.
Uma palavra errada
E irá parar no fundo
De teu pesadelo.
Quem menos pensa
Mais vê o que a vida
Tem de belo:
Quase sempre uma enorme
Mentira!
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Meu mundo é pequeno.
Passo horas pensando
Que tipo de coisa
Poderia estar acontecendo
Neste planeta minúsculo.
Às vezes costumo olhar
Para tudo que há lá fora
E não consigo evitar
Que venha o pensamento
De que aqui não gostaria
De ter surgido.
Entretanto, em momentos
Como esse, tento encontrar
Algo em que me agarrar
Mas eu nunca encontro nada
Apenas sinto que deveria
Continuar e vencer muito
Pois alguma coisa me sustenta
E eu não faço ideia do que seja.
Por mais que olhe no fundo
Da minha consciência -alma?-
Não consigo ver, pois é tremenda
A escuridão que ali há.
Nunca consegui compreender nada
De mim mesmo ou de todo o universo.
Acho que é meu dever
Encontrar um motivo;
Mas isso é tão ridículo
Por que humanos precisam de "motivo"?
Talvez eles apenas pensam que têm
Motivos para fazer o que fazem
Mas na verdade agem sem pensar
Quando sempre estão a se destruir
E a causar sofrimento.
Realmente acredito que os
Humanos só deixarão de se destruir
Quando forem reduzidos a UM SÓ.
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Sou luz, e a escuridão que me consome
Nessa noite fria é mera banalidade.
Pois enquanto respiro este ar empoeirado,
Percebo que na minha mente reside
Tudo aquilo que sinto, ou que senti.
O entoar da música, baixa e triste;
Que no fundo do lago da minha consciência
Habita, fazendo-me ter sonhos;
Mas enquanto tudo ao meu redor se quebra,
Sorrio para tudo. Apenas quero me preocupar
Com aquilo que tenho poder para mudar.
Que a chuva que cai sobre meu corpo
Continue a me molhar como sempre,
Fazendo-me sentir o frio da solidão,
Observando o calor das felizes famílias
Enquanto vivo no ambiente sórdido
Do meu coração.
Mas sou luz, sou a luz que brilha
E bate nos olhos de um cego,
Pois não preciso que me vejam
Apenas preciso existir para mim mesmo
E extrair de mim mesmo a substância
De que necessito para me manter aqui, vivo,
Numa explosão de sensações e sentires.
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O giro infindo do planeta
E mais uma noite como todas as noites.
Vozes e palavras escorrendo
E evaporando e se espalhando
Como vento pela cabeça vazia
Os sons de todos os momentos passados
Ou de momentos que ainda não aconteceram
Antecedendo a chegada de um tombo,
Ou sempre almejando um futuro melhor
E imaginando que, para alcançá-lo
É preciso derramar liquidos de lágrimas
E líquidos de sangue
Mas sempre lutar por sorrisos futuros.
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-"Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança."-
Entro e sinto o calor
Que de ti emana.
Caminho por tudo
Toco em tudo e aprendo
Ouço todas as batidas
E os caminhos infindos
De vida que existem
Pentro de ti.
Percorro tudo
Seguindo a trilha
E o caminho certeiro
Vejo todas as desgraças
E sofrimentos que há
Dentro deste tortuoso
Inferno.
Vejo caos e destruição
Morte e pesadelos
E escuridão por todo lado.
Em um canto
Consigo observar pessoas
Se devorando vivas.
Absorvo tudo o que consigo
E sigo indo
Em direção ao brilho
Sempre descendo mais fundo
Pra depois subir mais alto
E chegar no brilho eterno
Que é você de verdade
E conseguir decifar
A verdade por trás da verdade.
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O caminho é difícil
Mas preciso lutar
Cair de cabeça
E sentir a dor
Que há em todas
As batalhas travadas
Para outrora gozar
Da felicidade
De ter conseguido
Tudo o que eu almejei
E, daí, apenas aspirar
À alguma outra coisa
E daí continuar
Até que eu esteja satisfeito
E triste, por ter realizado
Todos os meus desejos.
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