Foto de Percio Bonikovski

Percio Bonikovski

@Percio · desde 2019

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Tocaia

Tocaia Foi um lamento Sofrido depois De sete tiros Disparados Foi consumado O destino Num meio dia De sertão Urubu voava alto Rodava o corpo no chão Padroeira Minha Santa Vim de lá Volto Mais Não Tocaia Tocaia A lama trava no chão É no tombo Da estrada Que finda Adiadas Mortes No sertão Canto a vida E canto a sorte Viola da solidão Sigo rumo às águas                                          claras Que turvam na perdição Tocaia Tocaia A lama trava no chão Que nem Santo Segue os passos De quem há De pagar contas No sertão Corro os dias Nessa estrada Cantando minha Feição Padroeira Minha Santa Vim de lá Volto Mais Não Tocaia Tocaia A lama trava no chão

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Versos do Sertão

Versos do Sertão Na Basílica De São Francisco Os Beatos de fé Filhos de Nazaré Partem nas andanças De esperança a Canindé Mãos de irmãos De fé e tradição Tecelões irmãos Tecelãs irmãs Renda feita Com amor E dor lá do sertão Acalantos Cantos de louvor Cantigas de roda Canto de pescador Que os Beatos trazem Das missões Lá do sertão Conselheiro A quinta expedição Corpo exumado E cabeça no chão Sobre a epopéia De Canudos No sertão Na poesia Em contos De cordel Tem rima De Baião Versado Em procissão Mas quem vive No sertão sem fé Cristão não é No leito Do rio Que a seca Dividiu Tem matita-perê Mas água não se vê As aves de arribação Se vão lá do sertão Jangadeiro É mestre Além-mar Seis paus de peuba Em noite de luar E São Pedro É proteção No mar Lá do sertão

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Canto de amarração

Canto de amarração Acorda Asa branca Já raio o dia Com passos De Alazão A tropa partiu Campeando Gado no chão Eh Boi... Com a cacimba vazia Rameado secou O Sol bebeu a água Boiada partiu Pra sombra Dos Umbuzeiros Num canto de Amarração É bem chegada A hora de fazer A louvação Eh Boi... Pras margens do rio Das contas Estrada sem fim Destino de gado e gente Mundo de passagem Na noite o clarão da lua Clareia as pedras no chão No céu a asa branca Segue a tropa Em procissão

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Labor

Labor Rendeira Boa rendeira Não deixará De tecer Que o tecido É trabalheira Que a gente queira Ou não queira A de tecer A vida inteira Com castigo E prazer Dês que o dia amanhece Rendeira tece que tece Pra não parar de tecer Tem na renda seu cuidado Tece para seu noivado Mais alva não pode ser Mas por arte Do malvado Não tinha O Labor findado Fere sua nívea mão E o sangue Encarnado Manchando O toque No Rendado Quanta dor No coração Rendeira

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Emiliano

Emiliano Foi olhar Para as letras Do mundo ... E o caminho Era de vento          e verso  ... Saltou do olho De Emiliano uma imagem. ... Amplidão! ... Emiliano foi ser missionário  Daquela Amplidão. E se dedicou a pregar A religião dos pássaros                    das pedras                   das árvores                    e dos rios... ... Tinha fases de lua no olhar. ... Pelo caminho  De vento, Brotou perfume  Nas ervas  ... Glorificava  O caminho Em versos ... Fazia oratória para os peixes  Ensinava geometria às árvores  Dava alinhamento à tempestade  Organizava as sombras ... E nas horas de descanso  Com mesmo empenho Com mesmo encanto... Escavava estrelas ... Santo! No mundo do criador. Homem no mundo das criaturas. ... Emiliano.

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Ilógicas

Para espalhar Suas cores Num poente A tarde Carece De pássaros .. Palavras Choveram Em mim Pingou estrela Nas flores Palavras Doentes Despencam Poemas

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O rio

Rio abaixo Rio acima Hora - rio  Entre pedras mudas ( Suas amantes) Enamoradas Secularizadas  Água ressuscitada  Repetindo adeus de decurso Em verso azul Na ribeira Onde o futuro Se demora... Boi - defunto Agouro de aves Arbustos sem galho Jurema e truçu  Assistem lagartos Presságios No litúrgico corpo úmido  De passagem

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Cartilha para o Ocaso

Transver um sapo em verbo, Versá-lo com uma begônia ... Pegar pelo rabo a palavra  Adormecida em dicionário  ... Umidece-la na língua das rãs ... Criar afetividade entre as formas... Feito Rio e Peixe ... Depois: Recolher das árvores  O resto da chuva  ... Lavar as mãos antes de tocar O horizonte  ... Aprender o significado da palavra "Cromosonho" ... Recolher as sombras De uma jabuticabeira No fim de tarde  ... Coçar a barriga das pedras  ... Ter a vista emaranhada  De Horizonte e fio de teia  ... Rimar Jacu de papo vermelho  Com vulva de vaca no cio  ... Colher das pedras; A poesia  ... Parir das pedras;  Os lagartos ... Guardar no oco do bambu O coaxar de um sapo ... Desaprender o caminho,  Feito um riacho ... Silenciar a voz quando ora um pato ... Comer pequenos suicídios diários  ... Com cordas feitas De poente, recolher Em feixes a aurora, Como se faz À erva do campo

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Iluminuras

Liquidifiquei  O adoecimento das palavras  Com o íntimo das pedras ... Soquei a incoerência  Da presença-ausência De um Sanhaço Com a grandiloquencia  De pulgas com olhar dilatado  ... Eis os Ais ... Brotou na frase Um verbo distorcido ... Penso que uma imagem  Amanheceu em mim ... Vi um rio andando Sem pressa  ... Feito cobra Por dentro do meu olho

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