Tocaia
Foi um lamento
Sofrido depois
De sete tiros
Disparados
Foi consumado
O destino
Num meio dia
De sertão
Urubu voava alto
Rodava o corpo no chão
Padroeira
Minha Santa
Vim de lá
Volto
Mais
Não
Tocaia
Tocaia
A lama trava no chão
É no tombo
Da estrada
Que finda
Adiadas
Mortes
No sertão
Canto a vida
E canto a sorte
Viola da solidão
Sigo rumo às águas
claras
Que turvam na perdição
Tocaia
Tocaia
A lama trava no chão
Que nem Santo
Segue os passos
De quem há
De pagar contas
No sertão
Corro os dias
Nessa estrada
Cantando minha
Feição
Padroeira
Minha Santa
Vim de lá
Volto
Mais
Não
Tocaia
Tocaia
A lama trava no chão
Versos do Sertão
Na Basílica
De São Francisco
Os Beatos de fé
Filhos de Nazaré
Partem nas andanças
De esperança a Canindé
Mãos de irmãos
De fé e tradição
Tecelões irmãos
Tecelãs irmãs
Renda feita
Com amor
E dor lá do sertão
Acalantos
Cantos de louvor
Cantigas de roda
Canto de pescador
Que os Beatos trazem
Das missões
Lá do sertão
Conselheiro
A quinta expedição
Corpo exumado
E cabeça no chão
Sobre a epopéia
De Canudos
No sertão
Na poesia
Em contos
De cordel
Tem rima
De Baião
Versado
Em procissão
Mas quem vive
No sertão sem fé
Cristão não é
No leito
Do rio
Que a seca
Dividiu
Tem matita-perê
Mas água não se vê
As aves de arribação
Se vão lá do sertão
Jangadeiro
É mestre
Além-mar
Seis paus de peuba
Em noite de luar
E São Pedro
É proteção
No mar
Lá do sertão
Canto de amarração
Acorda Asa branca
Já raio o dia
Com passos
De Alazão
A tropa partiu
Campeando
Gado no chão
Eh Boi...
Com a cacimba vazia
Rameado secou
O Sol bebeu a água
Boiada partiu
Pra sombra
Dos Umbuzeiros
Num canto de Amarração
É bem chegada
A hora de fazer
A louvação
Eh Boi...
Pras margens do rio
Das contas
Estrada sem fim
Destino de gado e gente
Mundo de passagem
Na noite o clarão da lua
Clareia as pedras no chão
No céu a asa branca
Segue a tropa
Em procissão
Labor
Rendeira
Boa rendeira
Não deixará
De tecer
Que o tecido
É trabalheira
Que a gente queira
Ou não queira
A de tecer
A vida inteira
Com castigo
E prazer
Dês que o dia amanhece
Rendeira tece que tece
Pra não parar de tecer
Tem na renda seu cuidado
Tece para seu noivado
Mais alva não pode ser
Mas por arte
Do malvado
Não tinha
O Labor findado
Fere sua nívea mão
E o sangue
Encarnado
Manchando
O toque
No Rendado
Quanta dor
No coração
Rendeira
Emiliano
Foi olhar
Para as letras
Do mundo
...
E o caminho
Era de vento
e verso
...
Saltou do olho
De Emiliano uma imagem.
...
Amplidão!
...
Emiliano foi ser missionário
Daquela Amplidão.
E se dedicou a pregar
A religião dos pássaros
das pedras
das árvores
e dos rios...
...
Tinha fases de lua no olhar.
...
Pelo caminho
De vento,
Brotou perfume
Nas ervas
...
Glorificava
O caminho
Em versos
...
Fazia oratória para os peixes
Ensinava geometria às árvores
Dava alinhamento à tempestade
Organizava as sombras
...
E nas horas de descanso
Com mesmo empenho
Com mesmo encanto...
Escavava estrelas
...
Santo! No mundo do criador.
Homem no mundo das criaturas.
...
Emiliano.
Rio abaixo
Rio acima
Hora - rio
Entre pedras mudas
( Suas amantes)
Enamoradas
Secularizadas
Água ressuscitada
Repetindo adeus de decurso
Em verso azul
Na ribeira
Onde o futuro
Se demora...
Boi - defunto
Agouro de aves
Arbustos sem galho
Jurema e truçu
Assistem lagartos
Presságios
No litúrgico corpo úmido
De passagem
Transver um sapo em verbo,
Versá-lo com uma begônia
...
Pegar pelo rabo a palavra
Adormecida em dicionário
...
Umidece-la na língua das rãs
...
Criar afetividade entre as formas...
Feito Rio e Peixe
...
Depois:
Recolher das árvores
O resto da chuva
...
Lavar as mãos antes de tocar
O horizonte
...
Aprender o significado da palavra
"Cromosonho"
...
Recolher as sombras
De uma jabuticabeira
No fim de tarde
...
Coçar a barriga das pedras
...
Ter a vista emaranhada
De Horizonte e fio de teia
...
Rimar Jacu de papo vermelho
Com vulva de vaca no cio
...
Colher das pedras;
A poesia
...
Parir das pedras;
Os lagartos
...
Guardar no oco do bambu
O coaxar de um sapo
...
Desaprender o caminho,
Feito um riacho
...
Silenciar a voz quando ora um pato
...
Comer pequenos suicídios diários
...
Com cordas feitas
De poente, recolher
Em feixes a aurora,
Como se faz
À erva do campo
Liquidifiquei
O adoecimento das palavras
Com o íntimo das pedras
...
Soquei a incoerência
Da presença-ausência
De um Sanhaço
Com a grandiloquencia
De pulgas com olhar dilatado
...
Eis os Ais
...
Brotou na frase
Um verbo distorcido
...
Penso que uma imagem
Amanheceu em mim
...
Vi um rio andando
Sem pressa
...
Feito cobra
Por dentro do meu olho