Ronaldo Paulino @PaulinoRonaldo

A entrevista

A entrevista Meu nome é Maia Terezinha. A fome estampada para o mundo, na câmera que registra a matéria, ainda não é realidade no corpo que sente — que a sociedade não sente. “Seu moço, acabei de enterrar meu filho de sete meses. Como muitas, ele agora é um anjinho, como os da Nossa Senhora. Está no céu, como Jesus. Agora ele não passa fome. Quando o corpo esmorecer, alimentando-me de sonho, o estômago não reclamará. Anestesiada até a alvorada, lavo minha máscara em água barrenta — e eu não tenho mais rosto. Grava aí, seu moço, o caixão do anjinho, que deveria ser o meu. Mas este Norte e Nordeste… as únicas gotas que caem são as do nosso abandono. Está gravando, Deus? Dê toda a alimentação aos seus filhos. Mas aqueles que têm mais, o coração é egoísta: até o alimento vai para o lixo. E o que escutamos pelo rádio, nessas estradas, é o movimento para calar a boca do estômago e fazê-la sorrir. Ei, seu moço, esta história seria outra. Meu filho, doutor, é que estaria fazendo o meu velório, como deve ser. E o coração de mãe partiria realizado, com os olhos verde e amarelo.” R. Paulino

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