Ema
Ema perdeu o rumo No espelho já não vê ninguém Os sonhos viram corredores escuros E ela não consegue voltar também Se fecha no banheiro em silêncio Pra ninguém ouvir desabar A água cai junto das lágrimas Enquanto tenta se apagar Externando a alma em cortes fundos Gritando baixo contra o chão Faz do desespero companhia E da dor sua religião Até encontrarem sangue frio Manchando o azulejo do lugar Braços cobertos por segredos Difíceis demais de explicar Levaram Ema ao psiquiatra Salas frias, cheiro de hospital Vozes treinadas pra acalmar Mas sem tocar o que era real Disseram: “Vai passar...” Mas ela já não acreditava Descobriu cedo demais Que não existe cura engarrafada Começou outro remédio Com um nome impossível de lembrar Enjôos, sono, boca amarga E um vazio impossível de calar Os dias pesavam toneladas Seu corpo mal conseguia existir Cada manhã parecia um castigo E cada noite, um jeito de sumir Ema tem só dezessete anos Mas fala como quem cansou A luz dos olhos foi embora E nem percebeu quando apagou Então encontrou aquela porta Entrou devagar no banheiro Trancou de novo o próprio mundo Como fazia o tempo inteiro A mãe chamou no corredor... Mas não ouviu resposta alguma “Ema?” Silêncio dentro da casa Silêncio dentro da chuva Silêncio dentro da vida Naquele dia o céu desabou Como se soubesse primeiro Ema partiu sem despedidas Deixando o inverno no espelho
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