Pinga.
É uma goteira.
Quando se vê, já é tarde.
Tudo escorreu, de gota em gota.
Não restou mais nada.
Pinga.
É uma goteira.
Goteja de pouquinho em pouquinho.
Tudo escorreu,
de gota em gota.
Quando se deu conta,
a tristeza o levou.
A goteira o esvaziou.
A dor o cingiu.
Pingava.
Era uma goteira
Dessa vez, não restou nada.
Foi crucial.
Ele se foi.
Era só uma goteira
que o levou.
Karla OSA
Em memória de todas as vítimas do suicídio.
Setembro Amarelo
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Às vezes, as pessoas despejam o pior delas em nós.
As pessoas estão feridas, então sangram em cima de nós. O pior é que nós também estamos feridos.
Eu queria que fosse diferente.
Eu queria não precisar lidar com o lixo de ninguém.
Queria que as pessoas também aprendessem a lidar com seus próprios lixos.
Eu preciso ter empatia? Não sei se em todos os casos.
Eu não preciso me cansar fácil, muito menos me esgotar fácil.
Só preciso dizer ao meu cérebro que essas coisas não me afetam, pois há uma blindagem espiritual maior que qualquer atentado. Há uma blindagem espiritual de luz. Há uma força dos céus. Eu sei que há.
Karla OSA
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Alguém me disse que aquela experiência mudaria minha percepção de mundo, que, a partir daquilo, eu saberia que coisas boas podem acontecer na vida de alguém; que a vida não é apenas um amontoado de vivências dolorosas a pesar na alma.
Lembro-me de falar sobre as crenças que a vida nos traz na infância e de como aquilo nos faz ter perspectivas irreais sobre algumas coisas. Por isso, acumulamos cicatrizes, pelas quais nós mesmos somos responsáveis, pelo que as causou.
Mas, de fato, mudou a minha visão sobre a vida. Mudou minha visão de mundo, expandiu minha consciência. Eu pude atravessar algumas camadas.
Hoje, restaram-me lembranças boas, às quais me apego pela ótica do que foi belo, e já não pelo que foi doloroso.
Karla OSA
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Ler é um ato sublime,
mas escrever é fragmentar-se
nas entrelinhas.
Karla OSA
As pessoas podem falar qualquer coisa sobre você, podem te desprezar, e você simplesmente não ligar. Porque quem já viveu na depressão conhece a anedonia; e o pior do que a tristeza e a melancolia é o vazio de nada se querer e nada se sentir. Um estágio onde nada tem sentido."
Karla OSA
As cicatrizes em seus pés foram essenciais para que você entendesse seu caminho futuro.
Karla OSA
Eu não quero mais percorrer as mesmas ruas, aquelas pelas quais um dia vaguei pelo passado.
Não quero mais me atordoar ao lembrar de quão exaustivo foi encontrar a saída.
Agora que deixei essas estradas para trás e decidi seguir por outro caminho, não quero sequer visitar o passado.
Faço das lembranças que não desejo tocar a minha força e, assim, torno-me inabalável como nunca fui antes.
Karla OSA
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Estou me lembrando de quem eu sou.
Há semelhança, é fato. O que eu poderia encontrar?
A forma como a vida se desbota aos meus olhos,
e a forma como ela ressignifica as cores de volta a mim.
E eu, com meus amontoados de palavras,
percebi que os escritores que admirava na infância são apenas poetas embriagados pela vida.
E eu, com minha ingenuidade, ao ler cada linha de suas crônicas, sonhava que minhas letras, expressas a punho, um dia seriam publicadas em algum espaço do jornal.
Hoje vivo em uma era sem folhas de jornais.
Restaram-me os meus próprios escritos em uma ou duas redes sociais.
Mas, quando leio algumas páginas físicas, afloro naquilo que mais amo: as palavras escritas.
Karla OSA
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Depois de muitos anos me dividindo,
me cortando pela metade,
eu querendo ser uma metade de qualquer coisa.
Não importava como fosse, só que fosse; eu, apenas uma metade.
Me parti ao meio.
A cada partir,
era um pedaço.
Em pedaços partidos, eu ia ao chão.
Parti tudo em mim.
Dividi a muitos,
até que não restasse nada mais.
E, ao repartir todos os pedaços, me vi desfeito.
E, ao me lembrar de como eu era inteiro, quis ser refeito.
Mas já não sabia onde estavam meus pedaços, então eu tive que partir para procurá-los.
Quando vi o que fizeram com meus pedaços, eu me vi em pedaços.
Karla OSA
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Sabe, a vida às vezes nos leva para alguns momentos em que deixamos nos dominar por sentimentos de passagem.
Eu costumava sentir muito antigamente. Eu costumava sentir.
Foi tanto sentir, e sentir, nascer e morrer, que eu parei de sentir. Parei de morrer em ritmo frequente. Agora morro às vezes, mas, como sempre renasço de novo e de novo, de forma diferente, moldei-me assim: totalmente moldável, plástica, elástica.
Sinto saudades de escrever todos os dias.
Karla OSA
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