Caminho
Queria eu saber se estou tão distante daquilo que em silêncio me chama. Se este traço incerto que sigo é estrada ou apenas tentativa de chão. Pergunto ao tempo, mas ele não responde apenas passa, e no seu passar me obriga a continuar. Há dias em que caminho como quem tateia o vazio, como se a terra faltasse sob os pés e, ainda assim, algo em mim insiste: segue. Talvez o rumo não seja um ponto, mas um fazer constante, um desenho imperfeito que se revela somente depois do passo dado. Dizem que somos feitos de histórias, mas pouco se fala do peso de escrevê-las. Entre o que fomos, o que somos e o que ainda não sabemos ser, há um intervalo e é nele que existo. E se ninguém lembrar? E se o tempo apagar as marcas que deixei? Será que o valor de uma vida depende do eco que ela produz ou do silêncio que sustenta? Talvez o legado não esteja nas grandes memórias, mas nos gestos que não se registram, nas presenças que não se anunciam, nos instantes em que, sem saber, tocamos o outro e seguimos. E quanto a mim que por vezes me julgo pequeno, insuficiente, inacabado quem definiu a medida do que é grandioso? Talvez não haja grandeza sem travessia, nem sentido sem dúvida. Sigo, então, não porque sei, mas porque busco. Não porque tenho chão, mas porque aprendi a caminhar mesmo quando ele falta. E, quem sabe, mais adiante ou dentro de mim descubra que o caminho nunca esteve fora, mas sempre foi aquilo que, mesmo em aflição, me fez continuar. Juliana de Carvalho Vieira
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.