A lua vigia silenciosa
E no campo o botão de rosa
Timidamente floresce
Aflui mansamente o orvalho
Nas folhas verdes do carvalho
E no campim que ali cresce
Folga os bichos noturnos
Enamorados, sortunos
Dormem os animais na serra
Canta a formosa iara
Acompanha no alto da Jussara
Um bacurau que não erra
No negro céu a passarela
Iluminada de estrelas
Faz a paisagem brilhante
Parece um rio que passa
E vai se derramando na taça
Do poeta nesse instante
O silencio das vagas conjura
A matiz singela e obscura
em que teço algum soneto
Sinto na alma a mudança
Vou como as ramas que balança
Pela bruma do céu preto
A fonte de águas reproduz
Do astro imenso a luz
Que inspira o meu ensejo
Tudo repousado num manto
A sereia recolhe o seu canto
E vai deitar-se no brejo
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Bebi um dia na fonte
Que se banhou a incerteza
e vi a alegria no horizonte
Atravessando a ponte
Me deixando com a tristeza
24 de dezembro 2022
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Uma rosa abrindo num jardim dourado
Uma ave soprando o silvo encantado
Uma criança alegre a brincar
Que brilho ganha a alma minha assim
Só em passares, amor, perto de mim
Solto os cabelos e o vento a te beijar
Na tua face Deus pos luz, estrelas
Na tua boca o mel da flor singela
Por teu sorriso fez o céu brilhante
Tem tal beleza o teu andar granfino
E a tua voz um som doce, divino
O teu perfume fez Deus inebriante
Tu distraída, e eu na vertigem cego
Por te ver e te adorar não nego
Que só a ti eu tenho devoção
Mas quando passas toda encantadora
Sinto na alma a ânsia tentadora
De te tocar por carnal razão
No ciciar da bruma, a madrugada
Vem sempre fria e a lua entre as estradas
Mistura lucidez medonha
Ja a fronte repousa no etéreo leito
E na ardência do teu claro peito
Não sei princesa com que mundos sonhas
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Sombrio vais em vasta solidão
Entre o vil pensamento torto
Não vê que jaz no peito semimorto
A larva da esperança e da paixão
E se sentes na vida morrer a razão
Com o tédio do dia, o desconforto
Eis que é um sentimento morto
Já o amor nesse teu coração
Com o afã dum covarde, te enlutas
Se termo a vida não deponhes
Nem coragem reúne pra disputa
Se assim és, que se envergonhe
pois até a inglória prostituta
Amigo, tem mundos com que sonhe
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Morrendo a luz do dia no horizonte
Se ouve a queixa em linda harmonia
Das avezinhas a cantar defronte
Da vaporosa e escurecida fonte
Que corre além da minha fantasia
Cedo se curva o brilho da paisagem
Na praia, e acima dos escolhos
Surge alegre, luminosa imagem
E é como um anjo pedindo passagem
A lua, que mais parece um olho
A tudo vendo de lá das alturas
Quem tudo rege, Deus, o criador
Que fez orgulhosa aquela criatura
Que tem nas faces tal brancura
E é quem eu mais desejo amor
Dedilhando acordes na guitarra
Vou afastando a minha solidão
E a tristeza acompanha e narra
Entre o meu canto e o da cigarra
Quem tem mais dor no coração
E vem de noite, pela madrugada
A mais sonorosa inspiração
Canta a alma em versos embargada
Antegozando a bela alvorada
Que irrompe no céu com perfeição
A ninfa que amo no sonhar me vem
Dar-me beijos livres com ternura
É a imitação acesa de alguém
Que finge que não sou ninguém
E ignora assim a minha figura
No campo em que o orvalho dorme
Sobre as rosas, folhas, palmeirais
Vai passear em desprazer enorme
A minha alma pois disforme
Tenho no peito muitos ais
Ao ouvir dos sabiás o silvo soberano
Deixo-me na mesma fonte cantar
Anseando os ares mais serranos
E a água enegrecida do oceano
Desse rio que mais parece o mar
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As tuas formas femininas
são a fonte divina
Da poesia que escrevo,
Quanto mais bebo desta fonte
Mais água jorra aos montes,
Nascem flores nos relevos.
De noite a lua se encanta
E o sabiá se levanta
Ganhando espaço no céu,
Eu também saio do ninho
E vou brincar com os passarinhos
Cantando coplas a Deus.
Meu amor, tudo é alegre,
Só quando o sol se atreve
As campinas verdejar,
O canto se acaba, e o dia
Vem roubar minha poesia,
Eu vou contigo sonhar.
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Se teus olhos virginais mirassem
Para onde estou, Meduza que encanta,
Seria como ver a belíssima atlanta,
Mas só me alucinas com miragem.
Se essa distância entre nós passasse
De simples coisa, mas não sendo,
Antecipo a morte e vou morrendo,
Como se uma fera animal me aferroasse.
Se um simples sorriso, de tua boca, ainda,
Se desprendesse em minha direção vindo, Todas as rosas no caminho iam se abrindo, Brilharia a manhã mais linda.
E se teu braço o meu roçasse leve
Ante a multidão mundana e lenta
todas as bocas de vulcões sangrentas
A terra tornariam a fazer greve.
Se tu soubesses do meu amor a soma, voluptuosa flor, celeste e matutina,
Sob os raios de sol que o orvalho afina Sentirias a paixão que ninguém doma.
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Quero sentar ouvindo a natura
A sombra salutar do arvoredo
A ave que canta, a leda criatura
Ao sol na penha dum rochedo
O colibri apaixonado, amante
Do fino perfume da rosa
Vagabundo nos ares, errante
Em busca da flor mais formosa
Em alcançar o êxtase o encanto
Que se sente um'alma a meditar
Só de ver se estender o manto
verde e divino do pomar
A viração, o frescor da aragem
Tecer nas olaias terno beijo
Vibrar nas palmas da folhagem
Da várzea alagada do brejo
Quero sentar ouvindo a natura
A sombra amena do arvoredo
Na solidão que a alma captura
Lendo Álvares de Azevedo
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NOS MEUS TEMPOS DE CRIANÇA
QUE DOCE AURORA SE VIA
NOS MEUS OLHOS A ESPERANÇA
COMO UMA ROSA SE ABRIA
QUE JASMIM PERFUMADO
MURCHOU-SE NA PRIMAVERA
E AINDA SINTO IMACULADO
OS BEIJOS DE QUEM ME DERA
MEUS OLHOS POR QUEM PAIXÃO
DEVOTEI A ALAGAR
O PRANTO QUE O CORAÇÃO
PODE NA INFÂNCIA CHORAR
DA VIDA NÃO PERGUNTAVA
NEM DO PRAZER NEM DA DOR
NÃO SABIA QUE CHORAVA
O QUE SE CHAMAVA AMOR
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Passo os dias só, não imaginas quanto,
tenho sonhos na alma e o coração veleja
No mar da solidão e minha boca beija
Os lábios latentes do molhado pranto.
Eu queria ver amor na vida, algum encanto,
E escrever o verso que minha alma deseja,
Longe do fardo que me atropela e peja
As glórias do etéreo sacrossanto.
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