Impressionante harmonia que incide.
Animais regressam quando chove,
nuvens transformam suas cores,
a terra se torna fértil e preciosa,
é como se a natureza controlasse
e curasse suas próprias dores.
Afastei-me dessa cura há um tempo.
Creio que a doença principal
vem da desconexão que persiste.
Falha enraizada profundamente,
enquanto tudo retorna ao reduto,
me congelei em uma memória triste.
Continuar lendo
De cima do morro,
Vejo o canal,
e as cidades que o cercam
E o verde que as cerca.
De cerca em cerco,
um terreno abandonado,
com um alto muro cercando,
com vários sonhos enfileirados;
vejo o cemitério logo abaixo.
A direita, as ilhas,
A esquerda, os barcos,
corações embriagados,
pescadores entrelaçados.
De barco em barco,
um pesqueiro abandonado,
com diversas canoas o cercando,
com alguns lares interligados;
vejo a rua vazia logo abaixo.
Continuar lendo
Hoje não me entristeci,
fui despertado com encanto,
o canto do pássaro azul na janela
cobriu minha mente como um manto.
Devaneios pela manhã
me salvaram assim que levantei,
pois o pesadelo me afogava...
Em memórias mergulhei.
Memórias recorrentes;
incompletas mas coerentes.
Elas sabem e sei também.
Contudo, o pássaro não sabia,
me fazendo assim acordar tão bem.
— Bem longe de onde deveria;
Confesso.
Confesso que me assustei...
Radiante, júbilo.
Como pude acordar assim?
espero que o pássaro não vá embora,
não vou deixá-lo se afastar de mim.
— Nunca mais, nunca mais.
Continuar lendo
Artigos, jornais,
espalhados pela sala.
Com os pés na mesa
ignorava a bagunça.
Com os pés na mesa
raciocinava.
Seu chapéu cinza
cobria parte do rosto,
cobria parte da sala.
Com o seu chapéu
tirava os pés da mesa
com os pés na mesa
o chapéu tirava.
Olhava os artigos,
fumava um cigarro,
raciocinava.
Com o jornal na mesa,
o pé no chapéu
e os cigarros espalhados
com os jornais na sala.
Continuar lendo
Com um sorriso forçado na mesa,
ajeitando o seu vestido branco,
se encontrava a filha de dona Teresa.
Doce e gentil, celeste.
Diferenciando-se
de sua mãe seresma.
Abrangia a todos
com muita atenção
e acabava esquecendo dela mesma.
Quando a sorrateira noite caía,
já era esperada a chuva lá fora.
Mas em seu quarto também chovia,
depois do grande tumulto ir embora.
Continuar lendo
Aquela moça de vestido,
de onde ela veio?
Conheço ela de algum lugar,
a encontrei em um devaneio.
Não sei há quanto tempo,
será mesmo que estou certo?
O seu andar parece comum,
preciso vê-la mais de perto.
Se eu fosse lá falar com ela,
pensaria que estou louco?
— Licença moça de vestido, mas
acho que lhe conheço um pouco.
Continuar lendo
Doce criança chorosa,
doce e antiga parte de mim.
Antigo afeto à memória,
de quando brincávamos no jardim.
Não existia motivo
e nem hora,
olhar nos olhos
não era difícil para mim.
Se envergonharia ao me ver agora,
me afogando em rótulos
e desânimo sem fim.
Minha mente,
procurou conforto outrora
e me lembrou de quando
brincávamos no jardim.
Continuar lendo
Lá no fundo
um sentimento.
Quando consigo dormir,
quando consigo sonhar,
penso em você.
Lembrança e saudade.
Esqueço de falar? Não.
Evito, prefiro esconder.
Talvez não faça sentido
(nada faz sentido),
a coruja sabe quando olha para mim
e a centopéia vai saber quando comer
minha memória.
Tento esconder de mim mesmo
no emaranhado de memórias;
mas hoje encontrei, encontrei você.
Por que a centopéia demorou tanto?
Quanto tempo falta
para realmente esquecer?
Continuar lendo
Não sei dormir.
E quando durmo, não sonho.
Não sei sonhar.
E quando sonho, não gosto.
Não sei gostar.
E quando gosto, não mostro.
Não sei mostrar.
E quando mostro, não durmo.
Vento frio, umidade,
a luz de um poste
piscava constantemente.
Ao anoitecer,
a chuva molhou o asfalto,
que molhou as rodas de um carro;
do único carro que parou ali
naquela noite.
Tropeçando nos próprios pés,
desceu do carro uma mulher.
Tão linda quanto a noite,
e inesperada como a chuva.
Não combinava com aquela rua,
nem com aquele carro,
e aquele terrível efeito
era de entristecer.
Continuar lendo