Viverei dos restos da tua boca,
viverei das sobras do teu seio,
viverei das sombras dos teus olhos.
Viverei do que você me disser,
do que você me trouxer
e do que carregar no peito.
Viverei do medo,
viverei da sorte
e viverei também
de todo e qualquer pensamento.
Viverei de você,
de mim,
demais,
de alguém.
Viverei de quem fizer parte
ou de quem nunca quiser nos ver.
Viverei.
Viverei eu
e você.
“Ensaio biográfico de um adolescente febril"
2026
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Lembra
a fragrância
da noite
E não menos
Os olhos
que fitam
a lua
Vestem-se bem
alternam entre luz e cor
e mistérios
Uma tarde em Père-Lachaise”
2026
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A inglesa de Manchester
tem os dentes manchados,
a tez pálida.
Lê Almada
enquanto aguarda
o embarque
em Charles de Gaulle.
De relance,
eleva o semblante
em busca de algo.
Nunca se sabe —
de Paris a Londres,
num voo.
O tempo muda
as pessoas também;
a história, porém,
continua
Uma tarde em Père-Lachaise”
2026
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Cansado da vida cansativa,
de escrever sem rima,
de tentar, talvez.
Viverei as ruas,
observarei os prédios da esquina,
observarei as pessoas
vagando
sem rumo certo.
Talvez eu cante sobre a morte,
da estrela à deriva para o norte,
em um desvio infinito.
Não vejo saída.
As paredes desabam
sob o frio amanhecer,
este lugar que alimenta
a incerteza crua
de estar vivo.
A natureza nos deu um propósito:
saborear cada momento
como se fosse o único.
Nossas mentes nos levam
para o outro lado.
Um pêndulo sem ritmo,
oco, disforme.
Quem viveu esta vida
saberá por quê
ou talvez nunca a tenha vivido.
Horizontes de chumbo frio,
linhas imundas mantidas em simetria.
Dizem que os homens
se fizeram deuses
em tom menor.
Ensaio biográfico de um adolescente
febril "
2026
Ensaio biográfico de um adolescente
febril "
2026.
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Quero vê-la
sem compromisso
um poema
em verso livre
em sua casa existem
sonhos
objetos de adorno
e
doces mais simples
desse amor
surgem sacrifícios
os dedos feridos
e a falta de ar
Ensaio biográfico de um adolescente
febril "
2026.
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Há um cadáver
junto à porta
na sala de estar
entre as poltronas
nas escolas
com outros dois ou três
nos cinemas
nova sessão
parecem
meninos
parecem
meninas ,também
parecem seus filhos
parecem os filhos de alguém
Ensaio biográfico de um adolescente
febril "
2026.
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Tudo começa numa noite.
Casas desmoronam,
e o chão se abre.
De volta à vida,
vejo cinzas,
palavras vazias
e um cheiro de morte.
São as tais horas esquecidas,
aquelas que Deus
esqueceu em suas rubricas.
Mas, lá fora,
ainda há corpos à meia-noite,
há silêncio e vergonha,
há vergonha e miséria,
e há injustiçados,
sentados à frente dos juízes.
"Esqueçam a justiça, essa senhora fútil e inculta, que deitou-se com os fariseus e, como condenada, escondeu o rosto na vitrine do dia."
Terra arrasada,
manchada
e amaldiçoada;
são os seus filhos,
seus frutos e herdeiros.
Os primeiros sofreram
a triste falência da verdade.
Os seguintes foram esquecidos pelo tempo,
e os derradeiros não terão
esperança, orgulho ou futuro.
Apenas o silêncio estrondoso da derrota.
Ensaio biográfico de um adolescente
febril "
2026.
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Uma tarde com a minha garota,
posso tudo.
Posso desenhar flores sobre a pele dela,
me deitar na relva,
escrever o seu nome na parede,
fingir de morto
e sentir o gosto dela em minha boca.
Uma tarde com a minha garota,
posso me sentir mais velho,
mais livre,
menos tenso.
Agir como um moleque,
um menino,
ou mesmo ter o preço da vida
escrito na palma das minhas mãos.
Tem calor,
tem olhos,
tem boca,
tem cheiro.
Tem a minha garota.
E, pelo jeito,
posso me sentir mais feliz.
"Ensaio biográfico de um adolescente
febril "
2026.
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O silêncio
das noites infelizes,
assiste
aos corpos dispostos
lado a lado
no piso
da sala
na terra molhada
na cava dos vinhedos
no asfalto da Oviedo
e revela
as marcas
e feridas
nos dedos em carne viva
na pele perfurada
nas testas carcomidas
em fria
calmaria
que merece atenção
respeito
e um silêncio
impetuoso
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Resta pouco para
partirmos;
ontem seria a última noite,
mas o voo foi adiado.
Antes dividimos o táxi
com uma inglesa de Manchester,
ainda surpresa
com os transtornos da nevasca na capital francesa.
Voltamos ao quarto
no 1.º andar
e a cama imensa,
nos convida a ficar.
Quanto a você,
observa da janela
as delícias do lugar,
as lembranças de Montmartre
e do Canal Saint-Martin,
como se não nos restasse a manhã.
Uma tarde em Père-Lachaise”
2026
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