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Fernando Pessoa

@FernandoPessoa · desde 2024

Trechos em memória de Fernando Pessoa outra conta: Rafael

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Cruz na porta da Tabacaria!

Cruz na porta da tabacaria! Quem morreu? O próprio Alves? Dou Ao diabo o bem-estar que trazia. Desde ontem a cidade mudou. Quem era? Ora, era quem eu via. Todos os dias o via. Estou Agora sem essa monotonia. Desde ontem a cidade mudou. Mas ao menos a ele alguém o via, Ele era fixo, eu, o que vou, Se morrer, não falto, e ninguém diria. Desde ontem a cidade mudou.

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Adiantamento (trecho)

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã...

Nao tenho pressa: não a têm o sol e a lua.

Não tenho pressa. Pressa de quê? Não têm pressa o sol e a lua: estão certos. Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas, Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra. Não; não tenho pressa. Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega - Nem um centímetro mais longe. Alberto Caeiro

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Adiantamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... Esta espécie de alma... Só depois de amanhã...

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Se eu morrer novo,

Se eu morrer muito novo, ouçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água, De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma, Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. Não desejei senão estar ao sol ou à chuva — Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra coisa), Sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe. Uma vez amei, julguei que me amariam, Mas não fui amado. Não fui amado pela única grande razão — Porque não tinha que ser. Consolei-me voltando ao sol e à chuva, E sentando-me outra vez à porta de casa. Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído. - Alberto Caeiro

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...

Escavo o rasto dos teus passos: o mundo derrama-se na cavidade que fica, . volto a amar-te no limite febril de mim mesmo, . tu folheias, agora a terra fina, os meus remotos testemunhos.

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Trecho de tabacaria.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

Clearly Non-Campos!

Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso, Que subitamente, como uma sufocação, Me aflige o coração que, de repente, Entre o que se vive, se esquece. Não sei qual é o sentimento Que me desvia do caminho, Que me dá de repente Um nojo daquilo que seguia, Uma vontade de nunca chegar a casa, Um desejo de indefinido. Um desejo lúcido de indefinido. Quatro vezes mudou a 'stacão falsa, No falso ano, no imutável curso Do tempo consequente; Ao verde segue o seco, e ao seco o verde, E não sabe ninguém quem é o primeiro, Nem o último e acabam.

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