Lias @Elias
Amor

LAMENTOS DAS SOBRAS DE UM CADÁVER

Já se apodrece toda a carne a qual um dia será vívida e bela. Sinto o aroma podre da carcaça que me sobra; tua parte. Você riria enquanto digo algo tão tosco e repentino, se estivesse aqui. Ao menos, suponho, não a conheço ainda. Não me chegou aos ouvidos que você falecera, talvez, pois ainda não tenha falecido de fato, no entanto, sinto como se tivesse partido, me deixando apenas uma carta que mais pareceria um aviso a uma despedida. Você me repreenderia por presumir que me abandonara, se estivesse aqui. Ao menos, suponho, não a conheço ainda. Você não gosta que eu fume, não só por fazer mal a saúde, mas por ser um péssimo exemplo aos pequenos, e ainda, por impregnar minhas roupas, tanto quanto meu hálito, com um desagradável odor de tabaco, o qual você é extremamente avessa, e por isso, agora que termino meu último charuto do dia, ou penúltimo quem sabe, brigaria comigo por ser meu sexto ainda antes do jantar. Ao menos, suponho, não a conheço ainda. Apaixonadamente, em uma manhã qualquer que se encontrasse de bom humor, prepararia torradas e ovos, os acompanhando com algum suco natural que lhe dera na telha assim que pisasse na cozinha, e dobrar-me-ia a dose de tudo, já que você sabe que gabar-me de comer mais que vocês todos no fim me aprazeria, e mesmo sabendo disso, por puro capricho, se zangaria pela puerilidade. Ao menos, suponho, não a conheço ainda. Mesmo sem me fazer entender, sei muito bem o que me ocorre. Rumino os mesmos pensamentos desde que tomei consciência de que estou no mundo e partirei em breve. Sinto a falta das brigas que teremos, dos zelos velados em provocações, dos verdadeiros carinhos que por persistência se dissolveram ao longo do dia em comum acordo com a rotina, e que, mesmo sendo banais, continuam apreciados como novos. Portanto, afirmo a favor dos movimentos da minha alma, por mais que hoje ainda me seja estranha, sinto falta da minha esposa.

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