O TREM
E o trem segue célere enquanto vejo passar a vida em tantos momentos. Já sou passageiro há anos a perder de vista, mas sinto que a velocidade está diminuindo a cada dia, a cada estação que se distancia no amplo horizonte do último vagão. Desperto toda manhã vendo indicações das próximas paradas, uma após a outra, sem contudo saber qual será a derradeira. Pela janela, o sol de verão adentra todo espaço sem cerimônia, o vento do outono lança folhas que planam na brisa, a chuva fina e o frio do inverno fluem em uma atmosfera que comprime a alma e encolhe o corpo, mas é a primavera que traz o alento colorido, perfumado e harmonioso da paisagem lá fora, aquecendo minhas esperanças, diminuindo meus anseios quanto ao fim da viagem. Parei de contar os dias e de me preocupar que cada noite não traga um amanhecer. De repente, um solavanco, um longo túnel, uma ponte nas alturas. Outros viajantes passam pelos corredores, alguns param deixando algo de si em mim, outros desaparecem sem qualquer sinal de presença anterior. A jornada existencial é crescer em toda experiência que cada estação pode lhe possibilitar, é abraçar toda e qualquer chance de ser feliz, sem se ater ao tempo, é receber no rosto o vento do norte, é ouvir, sem medo, o apito da chegada, é acreditar que o que te espera na plataforma não é a morte. (09/11/22)
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