Edwirges
@BrunaEdwirges · desde 2018
Sou aquela que passa e ninguém vê,
Sou a que chamam triste sem o ser,
Sou a que chora sem saber porquê.
- Florbela Espanca
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Vai cair um "toró"
Assim dizia a minha vó
Corre para o quintal
Tirar as roupas do varal
As telhas se lançam
As vigas balançam
As portas batem
E os cachorros latem
E a vizinha sempre a cochichar
Da mocinha que sai com o namorado
E tarda a voltar
Mas veja a chuva de verão!
Trazendo os sons da estação
O cheiro de cachorro molhado a exalar
Enquanto a mãe prepara o mingau do menino
Que está sempre a chorar
Estas coisas da vida
Coisas que tornaram-se queridas
Na memória ficará.
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Um homem jovial
madruga na boemia
e no bar imoral
vomita poesias
as mulheres bailam uma dança animal
pura fantasia
e o homem jovial
se entorpece de magia
recita para uma bela moça
a tua poesia
mas ela se faz de tosca
oferece-lhe a pele macia
ah... homem inocente
foi se embebedar
dos mistérios dessa gente
homem jovial
em um bar sôfrego e infernal..
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Sou o meu inferno dantesco
Minha poesia grotesca
Meu ocultismo sagrado
Sou a catedral gótica
As danças eróticas
Sou meu próprio pedestal
Sou um terrível vendaval
Sou meu triste caminho
Meu lar
Meu ninho
Sou quem passa e ninguém nota
Sou dó para quem cantou
Sou o mais doloroso amor
Sou a bruxa dos livros de magia
Sou cheia
Sou vazia
Sou quem não quero ser
Sou tanto!
Eu não sou nada
Sou pó sumindo na estrada
Sou palavra que não eternizou
Sou eu
Sumi
Sou ti
Sou tudo que me restou.
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Alma a vaguear
sorrisos excitantes
gente inocente a sonhar
que ideia brilhante!
tudo isso a similar
veja, homem, veja!
olhe bem para cá
tudo o que desejas
carne, vinho e um altar
cântigos dos teus ancestrais
laços infindos e surreais
e a menina maluca e surpresa
caminha tropeçando em seus delírios
enquanto tua sutil gentileza
cai no ego dos escolhidos
alma viajante
solidão alucinante.
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Busquei em meus complexos
Onde me refugiar
Vaguei por vales desertos
Tentei me reencontrar
Eu sorri para alguém que vi
Senti a alma sair de mim
Viajar para algum lugar
Meus olhos estão marejados
Escondidos entre um roxo sombrio
Minha face não é inocência
Abrigo um ser doentio
Entre desvarios de loucuras
Em meio a tantas conduras
Sou meu próprio sacrilégio
Em minhas runas antigas
Restou minha própria vida
Inspirada de magias
Mas, para tanto exagero
Deve haver algum apelo
Suplicando em agonia
No sal das minhas lágrimas
Dolorosas
Que sangra o peito
Faz ferver a carne magra
Sufocando em mim eu deito
Caio em rios amargos
Precipício das verdades
Eu menti, foi para mim
Me doeu
Me fez sentir
Como alguém sem liberdade
Meu amor, resta-me esperança
Não entrego-me a morte
Pois de todo o mal que a mim se lança
Esta não vem com tanta sorte
Me sinto enraivecida
Tão cruel
Tão dolorida!
Tão afoita de mim mesma
Ó, pobres os meus desesperos
Pobre a minha sutileza
Em vertigem desgrenhada
Caio aqui
Soterrada
Sob flores e panos de cetim
Em meu próprio ser me rendo
Meu refugio é aqui
Meu destino será horendo?
Não espero este fim.
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Sinto falta de me perder em teu corpo miúdo
De fazer-te arrepiar
Sinto falta dos teus olhos pequenos
Que brilham ameno
como as luzes da cidade
Sinto falta de ser tua
Tão e tão tua
Com toda itensidade.
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Maquia
Corta
Refaz
Transforma
Manipula
Reestrutura
Tortura
Esconde
Padroniza
Santifica!
Afunda todas as mazelas que teu corpo manifesta
A dor vai passar
Não aceita esse corpo imperfeito
Tantos defeitos!
Teu corpo cala
Não pode falar
Expressar
Sentir
Sangrar
Tuas cicatrizes são tua história
Teu corpo chora
Teu corpo implora
Para as amarras soltar
Teu corpo explode
Teu corpo sacode
Teu corpo imundo!
Tenebroso templo
Objeto
Monumento
Perfeição que não se transforma com o tempo
Não tem olheiras
Não tem dobras
Não tem pelos
Manchas
Estrias
Gorduras
Ossos a mostra
Não têm celulites
Não tem unha encravada
Não tem formatos diferentes
Não tem barriga grande
Peitos pequenos
Peitos caídos
Bunda pequena
Não tem cabelo ressecado
Mal penteado
Rugas
Não tem dor
Teu corpo não é teu abrigo
Não é teu amigo
Não é teu amor
Teu corpo não pode ser aceito
Não tem mais jeito
Rejeite-o!
Meu bem, teu corpo é casa
Ame-o como ninguém
Cada pequeno detalhe
Cada lugar escondido
Rejeitado
Reprimido
Mal amado
Mal sentido
Ele é teu
E é lindo
É arte pintada de amor.
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Quando me agrado a sorte
Trouxe para a minha morte
Sentido e dor
Saindo do mundo confuso
Surtando
Rasgando
Ferindo tudo
Seja para que lado for
Veja de mim o que me resta
O pouco de esperança
Nada presta
Nada se faz
Tudo é nada
Eu mancho este coração insano
Causando tanto dano
Ai que vida mal amada!
Sorte a tua colorida
Mal da minha não ter sorte
Traga-me de volta a vida
Leva-me para minha morte
Danço solta sem destino
Descalça de juízos
De conceitos
De tudo
Sou só eu
Nua e crua
Vestida de mim para o mundo
Como dói rasgar tua roupa
Para vestir-me com a minha
Como dói amar tão pouca
Para não ser assim mesquinha
Como dói não ser amor
Com medo de ser demais
Como dói sentir tal dor
Pois os castigos de ser:
FATAIS
Grita
Irrita
Bate
Briga
Assim faz-se meu eu
Onde abrigado de mim
Melhor casa para dormir
É no descalço dos meus braços
Desnudos
Deslaços
Desfaço meu ser em mim para ser amanhã quem não sou
Entre dor
E amor
Pudor.
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Aquilo tudo é demência
Loucuras minuciosas
Onde está a tua essência
Vaidades escandalosas
Basta um cabelo espetado
Tudo fora do lugar!
Teu ser selvagem
Invade!
Percorre caminhos onde jamais percorrerias
Por onde valsa tuas pequenas alegrias
Crianças sorrirem deliciosamente ao te ver sorrir
Doce miragem de um gosto reprimido
Males sortidos
Fugidos
És minha sede de abstinência
Vício incansável
Que me sustenta
Somos eternos pássaros a voar
Para longe tuas asas te levam
Explorando o que o mundo te dá
Traz para mim, meu bem
Traz teu ser e tua calma
Saboreia minha agonia
Perversa fantasia
Cala.
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