Céu de Estrelas
Há noites em que o céu parece
baixar devagar sobre a cidade,
como se Deus, com mãos silenciosas,
bordasse estrelas na escuridão.
E eu fico olhando...
Uma por uma, elas acendem
pequenas janelas sobre o infinito,
e cada luz distante parece dizer
que até a noite guarda um segredo
para quem sabe esperar.
Ah, céu de estrelas,
quem poderia contar
quantos sonhos cabem
entre a primeira luz e o amanhecer?
Talvez haja uma estrela
que conheça o nome do meu coração,
que tenha visto meus silêncios,
minhas partidas,
e as palavras que nunca tive coragem de dizer.
Porque o amor é assim:
parece pequeno quando está nas mãos,
mas quando se perde no horizonte
vira céu.
E talvez amar seja contemplar
uma estrela que não podemos tocar,
mas que, mesmo tão distante,
consegue iluminar nossos olhos.
Nesta noite,
não quero pedir ao céu que amanheça.
Quero apenas ficar aqui,
quieto,
ouvindo o silêncio das estrelas
e deixando que a saudade
converse comigo.
Se algum dia você olhar para cima
e encontrar uma estrela mais brilhante,
não pense que é apenas luz.
Pode ser o amor
que alguém deixou escapar da terra
e foi morar no céu.
E quando a madrugada chegar,
quando as estrelas forem desaparecendo
uma depois da outra,
ficará apenas o azul anunciando o dia.
Mas eu saberei:
o céu não perdeu suas estrelas.
Apenas as guardou
para outra noite.
E talvez o amor também seja isso —
uma estrela que se esconde,
mas nunca deixa
de existir.
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ABANDONADO
Fiquei sozinho à porta do mundo,
quando todos partiram sem dizer por quê.
E o silêncio, profundo e vagabundo,
sentou-se ao meu lado para me ver.
Não sei se fui eu que perdi a estrada,
ou se a estrada é que me perdeu.
Levo no peito uma casa fechada,
onde um dia alguém morou — e morreu.
Chamei por nomes que o tempo apagou,
procurei passos no chão da memória;
mas cada voz que dentro de mim ecoou
era somente o começo de outra história.
Abandonado, não sei se sou,
ou se apenas aprendi a ficar.
Talvez quem parte nunca nos deixou;
talvez permaneça no modo de lembrar.
E assim caminho, sem saber destino,
com uma tristeza que não quer morrer.
Sou homem, sou sombra, sou peregrino,
sou alguém que aprendeu a se perder.
Mas há, no fundo desta solidão,
uma pequena luz que não se rende:
quando o mundo abandona o coração,
é quando o coração a si mesmo entende.
E se ninguém voltar para me encontrar,
não farei da ausência o meu final.
Há abandonos que ensinam a caminhar,
e há solidões que nos tornam imortais.
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A Chuva
A chuva chegou sem pedir licença,
como chegam certas lembranças:
primeiro uma gota,
depois outra,
e quando percebemos
já estamos molhados de passado.
Ela cai sobre os telhados
como quem bate à porta de uma casa vazia.
Cai nas ruas,
nas árvores,
nos olhos de quem espera,
e talvez até no coração
de quem já não sabe o que esperar.
Há uma tristeza bonita na chuva.
Não porque ela seja triste,
mas porque faz silêncio
onde antes havia ruído.
E nesse silêncio
o homem se encontra consigo.
A chuva não pergunta
quem somos,
quanto temos,
onde chegamos.
Ela simplesmente cai.
Cai sobre o rico
e sobre o pobre,
sobre o justo
e sobre aquele que ainda procura justiça,
sobre a janela aberta
e sobre a porta fechada.
E talvez seja esse
o seu maior ensinamento:
ninguém consegue impedir o céu de chorar.
Mas há quem descubra,
debaixo da chuva,
que também é preciso chorar
para continuar vivendo.
Há lágrimas que lavam.
Há lágrimas que lembram.
Há lágrimas que despedem.
E há aquelas que, silenciosamente,
preparam o coração
para começar outra vez.
Quando a chuva passa,
a cidade permanece a mesma —
mas nunca exatamente igual.
O chão guarda a água.
As folhas guardam o brilho.
O céu se abre devagar.
E nós seguimos.
Porque a vida é assim:
uma sucessão de tempestades
e pequenas aberturas de céu.
Talvez Deus não mande a chuva
para nos impedir de caminhar,
mas para nos ensinar
que até os dias cinzentos
podem carregar dentro de si
a promessa de uma manhã.
Por isso, quando chover,
não tenha tanta pressa de fugir.
Pare um instante.
Escute.
Talvez exista uma mensagem
escondida no barulho da água:
tudo aquilo que parecia seco
ainda pode florescer.
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Ao Meu Amor
Não sei se te amo
ou se amo em ti
a parte de mim que ainda não morreu.
Porque amar é isto:
um homem caminhar dentro de si mesmo
procurando alguém
que talvez exista apenas
na distância entre dois silêncios.
Tu chegaste sem chegar,
como chegam as coisas eternas:
sem ruído,
sem anúncio,
como a noite que desce sobre o mar
e ninguém sabe dizer
em que momento o céu começou a escurecer.
Eu te amo —
mas não sei explicar o que isso significa.
Talvez amar seja olhar para uma pessoa
e sentir que o universo, por um instante,
encontrou um lugar para descansar.
Talvez seja querer tocar tua mão
e, ao mesmo tempo, compreender
que nenhuma mão pode segurar
aquilo que nasceu para ser infinito.
Meu amor por ti não é somente desejo.
É pensamento.
É aquela estranha tristeza
de saber que toda felicidade
já nasce com uma sombra.
Porque tudo o que amamos
carrega dentro de si
a possibilidade de perdermos.
E, ainda assim, amamos.
Que coisa absurda é o coração humano:
sabe que a rosa há de murchar
e mesmo assim aproxima o rosto
para sentir o perfume.
Eu faria o mesmo contigo.
Amaria mesmo sabendo
que o tempo não promete permanência.
Amaria porque talvez o amor verdadeiro
não seja possuir alguém,
mas reconhecer, diante do infinito,
que encontramos uma presença
que torna a nossa solidão menos solitária.
Tu és, para mim,
essa espécie de presença.
Não és somente mulher,
nem somente sonho,
nem somente lembrança.
És uma pergunta
que o meu coração continua fazendo ao céu.
E talvez nunca exista resposta.
Mas há perguntas
que valem mais do que respostas.
Por isso, se um dia me perguntares
o que foste para mim,
não direi simplesmente:
“foste meu amor”.
Direi:
Foste o instante em que minha alma, cansada de procurar sentido,
encontrou alguém diante de quem até o silêncio parecia ter significado.
E se amanhã o tempo nos separar,
não direi que o amor morreu.
Direi apenas
que algumas coisas não terminam:
mudam de lugar.
Vão do abraço para a memória,
da memória para o sonho,
do sonho para a eternidade.
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FAROL DAS ESTRELAS
Há uma luz perdida no horizonte,
uma luz que não sei de onde vem,
talvez do mar, talvez do céu distante,
talvez dos olhos de alguém.
E eu fico aqui, sozinho,
entre a noite e o infinito,
ouvindo o silêncio das ondas
como quem escuta um antigo grito.
Porque há estrelas que apenas brilham,
e há estrelas que sabem chamar;
há luzes que enfeitam a noite,
e há luzes que ensinam a amar.
Tu és, talvez, essa luz escondida,
esse clarão que não quer morrer,
o farol que atravessa a minha noite
quando já não sei para onde correr.
E se o mar levar meus caminhos,
e se a noite apagar minha voz,
há de ficar teu brilho distante
feito um sinal entre nós.
Não sei se o amor é eterno,
nem sei se a estrela sabe ficar;
mas sei que, quando o mundo escurece,
há sempre uma luz sobre o mar.
E então compreendo, em silêncio,
diante do céu que não tem fim:
talvez o farol das estrelas
não esteja no céu —
esteja em mim.
E se um dia eu me perder
nas águas profundas da vida,
que tua luz me encontre de longe,
como uma estrela esquecida.
Pois há noites que pedem aurora,
há mares que pedem luar,
e há homens que passam a vida
procurando uma luz para amar.
Eu não quero possuir tua estrela,
nem prender teu brilho em minhas mãos;
quero apenas contemplá-la de longe,
como quem contempla uma oração.
E quando finalmente a noite
se entregar ao primeiro clarão,
talvez eu descubra que o amor
é o farol aceso
dentro da escuridão.
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Estuário
Há um lugar onde o rio desaprende a ser rio, e o mar, por um instante, esquece sua antiga soberania.
Chamam-lhe estuário. Eu chamo-lhe alma.
Porque também há em mim águas doces que nasceram da inocência e águas salgadas vindas das lágrimas que o tempo ensinou a derramar.
Nenhuma delas vence. Ambas aprendem a coexistir.
Velho tempo talvez dissesse que o homem é um país habitado por desconhecidos. E eu acrescentaria: o coração é um estuário onde todos os nossos nomes deságuam sem jamais desaparecer.
Ali, a infância ainda conversa com o velho que um dia serei. O menino pergunta. O adulto responde. O ancião sorri, porque descobriu que nenhuma resposta era definitiva.
Há marés dentro dos pensamentos. Há luas que levantam memórias sem pedir licença à razão. E há silêncios que dizem mais do que bibliotecas inteiras.
O estuário não escolhe entre a água doce e a salgada. Recebe ambas. Talvez seja esse o segredo da sabedoria.
Não negar a dor, nem adorar a alegria.
Apenas permitir que ambas atravessem a eternidade como duas aves que utilizam o mesmo céu sem jamais colidirem.
Somos feitos de encontros. De despedidas. De correntes invisíveis que nos empurram para oceanos que nunca vimos.
O destino, esse cartógrafo silencioso, não desenha caminhos. Desenha confluências.
E quando finalmente compreendemos que toda chegada é apenas uma nova foz, descobrimos que viver não era vencer a corrente.
Era tornar-se água suficiente para encontrar o infinito sem perder a nascente.
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Casa Comigo, Amor
Casa comigo, amor,
não para vencermos a solidão,
mas para aprendermos que ela também
é uma morada da alma.
Casa comigo
quando o tempo já não souber teu nome,
quando os espelhos esquecerem teu rosto
e apenas os olhos souberem reconhecer quem és.
Não te prometo jardins eternamente floridos.
Prometo-te a verdade das estações:
haverá inverno em nossas mãos,
mas também primavera escondida nas raízes.
Casa comigo,
e faremos da esperança uma cadeira à porta,
para esperar, sem pressa,
os milagres que Deus costuma entregar aos pacientes.
Se um dia eu me perder de mim,
chama-me pelo silêncio.
É nele que sempre encontro
o caminho de volta.
Porque amar
não é prender duas almas na mesma corrente;
é ensinar duas liberdades
a caminharem na mesma direção.
Casa comigo, amor,
não porque o mundo seja pequeno,
mas porque o infinito
cabe dentro de um coração que escolheu permanecer.
E quando os cabelos forem apenas lembranças da juventude,
e as mãos carregarem os mapas do tempo,
olharemos um para o outro
como quem contempla a própria eternidade.
Então compreenderemos, enfim,
que o amor nunca pediu perfeição;
pediu apenas coragem
para dizer "fico",
quando todos os ventos ensinavam a partir.
Casa comigo, amor.
E se algum dia a morte bater à nossa porta,
que nos encontre sentados lado a lado,
como dois viajantes que descobriram, tarde demais,
que o verdadeiro destino
nunca foi o mundo inteiro,
mas o pequeno universo
que Deus construiu
entre a tua mão
e a minha.
Autor: Everton Castilho Fernandes.
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Autor: Everton Castilho Fernandes.
Antes de tudo, deixo o título como uma porta entreaberta:
O Laço do Teu Abraço
Há abraços que não se desfazem quando os braços se separam.
Ficam. Como um nó invisível amarrado no lugar onde a alma aprendeu a chamar alguém de casa.
E eu, que atravessei avenidas, relógios, multidões e os intermináveis corredores de mim mesmo,
descobri tarde demais que o universo não mede distâncias em quilômetros, mas na ausência de um único abraço.
Que estranha arquitetura é o coração!
Constrói catedrais com um gesto de segundos, e passa anos procurando a porta daquilo que ele mesmo ergueu.
O laço do teu abraço não me prende.
Liberta-me da pior das prisões: a de existir sem pertencer.
Porque há pessoas que passam pela nossa vida como os ventos passam pelas árvores.
E há outras que deixam raízes dentro do peito.
Desde então, carrego esse laço invisível como quem leva uma estrela escondida sob o casaco.
Ninguém vê.
Mas é ela que ilumina as noites em que a esperança parece esquecer o caminho de volta.
Se um dia o tempo desatar todas as lembranças, que fique ao menos isto:
fui verdadeiramente abraçado.
E quem conhece, ainda que por um instante, o infinito escondido no laço de um abraço,
jamais volta a ser apenas um homem.
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O Teu Beijo
O teu beijo não foi um beijo.
Foi um abismo com a delicadeza de uma flor e a violência de um oceano inteiro.
Desde então, nunca mais soube se caminho para a vida ou se apenas continuo caindo na lembrança da tua boca.
Há pessoas que passam. Tu permaneces.
Permaneces como permanecem as coisas que nunca mais conseguimos esquecer: o cheiro da chuva, o sino distante da infância, a última estrela antes da madrugada.
O teu beijo fez de mim um estrangeiro em mim mesmo.
Agora converso com as paredes, interrogo o vento, procuro o teu nome nas ondas, como se o mar pudesse devolver aquilo que levou sem pedir licença.
Que estranho...
O universo continua funcionando, os trens chegam, as ruas se enchem, os relógios insistem em existir...
E, no entanto, desde aquele instante, o tempo deixou de acontecer dentro de mim.
Talvez amar seja isso: continuar vivendo quando a melhor parte de nós ficou presa em um único segundo.
Se um dia voltares, não tragas promessas.
Traz apenas o silêncio que existia entre os nossos lábios antes do primeiro beijo.
Porque descobri tarde demais que não era a tua boca que eu beijava.
Era a eternidade disfarçada de um instante.
Autor: Everton Castilho Fernandes.
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Me beija.
Mas não como quem fecha uma distância.
Beija-me como quem abre um abismo.
Porque eu já vivi tempo demais do lado de fora de mim.
Há cidades inteiras construídas dentro do meu peito e nenhuma delas encontrou ainda um habitante que suportasse o peso do meu silêncio.
Beija-me.
Que a tua boca seja a única revolução capaz de derrubar este império de pensamentos que governa a minha alma desde antes de eu nascer.
Tenho cansaço de existir.
Tenho sede de sentir.
Tenho fome de uma eternidade que caiba na duração impossível de um beijo.
E que espantoso é perceber que dois lábios podem carregar mais destino do que mil discursos, mais verdade do que todas as filosofias, mais Deus do que muitos templos erguidos apenas de pedra.
Me beija.
Porque o universo inteiro parece uma máquina gigantesca fabricando estrelas que morrerão sem jamais terem sido olhadas.
E eu também fui uma dessas estrelas.
Brilhei para dentro.
Ardi sem testemunhas.
Explodi em galáxias que ninguém percebeu.
Talvez um beijo seja apenas isto:
o instante em que dois infinitos deixam de competir e aceitam desaparecer um no outro.
Tenho medo.
Não de te perder.
Mas de descobrir que existe um amor maior do que a minha capacidade de suportá-lo.
Porque todo amor verdadeiro é um terremoto elegante.
Primeiro destrói os alicerces.
Depois ensina as ruínas a florescer.
Me beija.
Até que os relógios desaprendam as horas.
Até que o tempo peça perdão por nos ter separado antes de nos conhecer.
Até que os nomes caiam dos nossos rostos e reste apenas aquilo que nunca precisou de linguagem para existir.
Quero que o teu beijo me desminta.
Que prove que não nasci apenas para atravessar dias como um viajante cansado atravessa estações vazias.
Que prove que ainda existe um lugar onde a alma não precisa explicar por que chora.
Me beija.
Não para matar a saudade.
A saudade é imortal.
Beija-me para que ela descubra, pela primeira vez, que até a eternidade pode ajoelhar-se diante de um único instante.
Autor: Everton C. Fernandes.
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